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O discurso de De Gaulle pela BBC, em 1940.

Em junho de 1940, ainda pouco conhecido, De Gaulle, aos 49 anos, deixou a França depois da invasão alemã e chegou sozinho à Inglaterra.

Como general, não dispunha de posição hierárquica necessária para se opor aos marechais gauleses, que capitularam diante do poder militar do führer, mas estava decidido a continuar lutando para libertar a França do jugo nazista.

Nas suas “Mémoires”, o próprio De Gaulle definiu sua situação naquele momento, em Londres:

“Quanto a mim, eu não era nada ao partir. Na França, nenhuma receptividade e nenhuma notoriedade. No estrangeiro, nem crédito, nem justificativa. Mas esta mesma situação traçava minha linha de conduta. Esposando a causa da salvação nacional, poderia encontrar a autoridade. Agindo como o guerreiro inflexível da Nação e do Estado é que me seria possível agrupar entre os franceses o consentimento, o entusiasmo, e obter dos estrangeiros o respeito e a consideração. Em resumo, por mais limitado e solitário que fosse, e justamente porque o era, eu devia ganhar as alturas e delas não descer jamais.”

De Gaulle

Londres, 18 de junho de 1940: inaugurando a resistência contra a ocupação nazista, De Gaulle profere, na BBC, o histórico “Apelo aos Franceses”

O general foi acolhido por Churchill que, na ausência de outro militar francês de maior patente, ofereceu a ele o apoio suficiente para começar o trabalho de reunir cidadãos tricolores exilados e refugiados e, mais tarde, os oficiais abrigados nas colônias do país pelo mundo, ocupando a posição de líder dos franceses na luta contra a ocupação nazista. Com a visão de estadista que já possuía, logo pediu a Churchill acesso à BBC para se dirigir a seu povo, conclamando-o à resistência e dando o primeiro passo para fixar sua ascendência sobre a França não-colaboracionista.

Foi com esse discurso comovido – batizado de “Apelo aos Franceses” – que De Gaulle avisou ao mundo que sua nação resistiria. E pediu à população que havia ficado do outro lado do Canal da Mancha que não perdesse a esperança, porque a França seria, sim, libertada (sua mensagem rendeu-lhe uma condenação à morte, sentença que lhe foi comunicada pela Embaixada do país em Londres, em 30 de junho). Ficou combinado com Churchill que o militar falaria pela BBC tão logo a França assinasse o armistício com a Alemanha. No dia 18 de junho, o Marechal Pétain pediu a trégua e De Gaulle ocupou os estúdios da célebre emissora britânica para entrar para a história.

Apelo aos franceses

“Os chefes que há muitos anos comandam o exército francês formaram um governo. Este governo, alegando a derrota de nossas forças armadas, pôs-se em contato com o inimigo para por fim ao combate. É certo que fomos, e estamos, submergidos pela força mecânica terrestre e aérea do inimigo.

Hitler conversando com oficiais

A França subjugada: num ato impressionante, Hitler manifesta satisfação ao saber que o exército alemão dominara Paris

Infinitamente mais importante do que o número de soldados, foram os seus tanques e os seus aviões, a tática dos alemães que nos fizeram recuar. Foram os tanques, os aviões e a tática dos alemães que surpreenderam nossos chefes, a ponto de levá-los à situação em que hoje se encontram. Mas será que a última palavra foi pronunciada? A esperança deve desaparecer? A derrota é definitiva? Não.

Creiam em mim, eu que lhes falo com conhecimento de causa e lhes digo que nada está perdido para a França. Os mesmos meios que nos venceram podem, um dia, trazer-nos a vitória. Porque a França não está sozinha. Ela não está sozinha! Ela não está sozinha! Ela possui um vasto império por trás dela. Ela pode formar um bloco com o Império Britânico, que domina os mares, e que continua a guerra. Ela pode, como a Inglaterra, utilizar sem limites a imensa indústria dos Estados Unidos.

Esta guerra não está limitada ao território infeliz de nosso País. Esta guerra não foi terminada com a batalha da França. Esta é uma guerra mundial. Todas as faltas, todos os atrasos, todos os sofrimentos, não impedem que exista no universo todos os meios para esmagar um dia nossos inimigos. Arrasados hoje pela força mecânica, nós poderemos vencer no futuro por uma força mecânica superior. Este é o destino do mundo.

Franceses chorando ao ver as tropas nazistas marchando sobre a Champs-Élysées

Com o Arco do Triunfo ao fundo, soldados nazistas marcham sobre a Champs-Élysées, diante do olhar inconsolável e estarrecido dos parisienses

Eu, General De Gaulle, atualmente em Londres, convido os oficiais e soldados franceses que se encontram em território britânico, ou que para ele venham, com armas ou sem armas, eu convido os engenheiros e trabalhadores, os especialistas das indústrias de armamento, que se encontram em território britânico, ou que para ele venham, que se ponham em contato comigo.

Aconteça o que acontecer, a chama da resistência francesa não deve se apagar, e ela não se apagará. Amanhã, como hoje, eu falarei pelo rádio, de Londres.”