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O Erro do assessor: julgar-se indispensável

É um erro compreensível, humano e até mesmo ingênuo. Mas, ao contrário do que dizia Madame de Staël: “Tout comprende c’est tout pardonner”, na política nem sempre compreender tudo leva a perdoar tudo.

O assessor pode incidir neste erro e muitos o fazem porque, em primeiro lugar, “houve um momento em que ele foi indispensável” e as evidências desta sua condição, eram óbvias para ele, talvez para alguns outros do círculo mais próximo do líder e, para o seu chefe que, implícita ou explicitamente, demonstrou pensar assim.

Quando este “momento” ocorreu não nos importa aqui. Pode ter sido durante a campanha, ou durante o governo, ou no período em que esteve fora do poder. O fato é que ocorreu.

Há ocasiões em que o assessor se supera; outras em que, frente a um problema aparentemente sem solução, ele surpreende com uma solução clara, límpida, consistente que permite resolver a dificuldade; outras vezes, seu trabalho é tão intenso, possui tantas delegações de autoridade, que economiza tempo precioso para seu chefe se dedicar a outras ações.

Em condições como estas, insinua-se na mente do assessor uma perigosa convicção: ele é indispensável. Está seguro em sua função porque seu chefe “depende” dele, “não conseguiria levar suas atividades sem a sua ajuda e conselho”.

Esta convicção é ainda reforçada pelo fato de que o político ao qual serve, envolve-o em matérias que, de ordinário não o incluiriam. Convida-o para reuniões com pessoas de hierarquia muito mais alta que a dele e, volta e meia demonstra sua confiança, estima e valor ao conversar com ele sobre matérias de ordem pessoal, sobre o seu futuro político, e até confidências mais íntimas.

Pode ocorrer que relações desta natureza se mantenham por muitos anos, algumas por toda a carreira do político. Para que isto suceda é necessário que o chefe seja um tipo especial de político, e o assessor, um tipo especial de assessor. Por tipo especial, entenda-se basicamente, pessoas mais pacatas e de pouca competitividade.

Pessoas ambiciosas, competitivas, agressivas acomodam-se com muita dificuldade neste perfil.

Pessoas ambiciosas, na luta permanente para aumentar seu poder, são indivíduos comprometidos com a mudança. Mudança nos temas, mudanças nos planos, mudanças na maneira de ser e operar, mudanças nas expectativas e exigências, para citar algumas.

São indivíduos que estão sempre fazendo novas relações, conhecendo novas pessoas, descobrindo as falhas de sua estrutura de apoio e as virtudes das dos outros.  Com este comportamento estarão sempre fazendo comparações entre sua organização, sua campanha, seus assessores, e as de seus colegas e competidores.

São políticos que têm pressa, que buscam “atalhos”, que têm lances ousados, aceitam o risco. Em consequência, são “políticos compradores” no sentido de mercado. Isto é, estarão sempre dispostos a buscar no mercado, auxiliares que o ajudem a alcançar as metas que se propõem, não hesitando em mudar sua equipe de apoio, quando julgar conveniente.

Este político já sacrificou muito de sua vida familiar e pessoal para ter maiores escrúpulos em sacrificar um assessor, por mais leal e competente que tenha até então sido.

Não é este o sentimento do assessor. Este, em razão da relação privilegiada que sempre teve, desenvolve muitas vezes uma relação de afeto, estima e proteção em relação ao seu chefe que, combinada com aquele sentimento de estabilidade, fundado no fato de se perceber indispensável, justifica toda a sorte de sacrifícios pessoais.

Há, pois, nestes casos, duas curvas que têm entre si uma relação inversa: a do chefe evolui da intimidade para a instrumentalidade e o distanciamento afetivo; e a do assessor evolui do profissionalismo objetivo para a amizade, admiração, intimidade.

Nesta situação, aquela liberdade e autonomia quase absolutas que o assessor desfrutava, num determinado momento, pode ser “tacitamente revogada”, sem mandar aviso. Os planos mudaram, outras formas de fazer as coisas são adotadas, outras pessoas passam a ter maior influência sobre o chefe e, em consequência, o assessor fica em questão.

O assessor de sua parte, envolvido com toda a sorte de tarefas e problemas, custa a entender o que está acontecendo e continua agindo como antes, o que o torna um obstáculo à mudança.

Os momentos de intimidade, as oportunidades de lazer, a presença em reuniões importantes, escasseiam, quando não desaparecem. O assessor tende a interpretar que é o acúmulo de trabalho, as atividades e responsabilidades novas do político que impedem a sua ocorrência. Não há mais tempo livre como houvera no início, o chefe de tão atarefado esqueceu-se de convidá-lo, são algumas das razões que ele dá para a situação.

Amparado naquele sentimento de que é insubstituível e de que é indispensável, o assessor aposta na “folga” de poder e prestígio que possui e, não se sentindo ameaçado, não chega a fazer uma análise mais detida e mais objetiva da situação.

De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, envolta numa explicação meio confusa de reformulação do trabalho, amenizada por vagas referências sobre retornarem a trabalhar juntos no futuro próximo, a notícia da sua dispensa chega-lhe como uma bomba, fazendo-o descobrir o que deveria saber desde o início: que ninguém é indispensável ou insubstituível, sobretudo para um político ambicioso, competitivo, em luta ativa e permanente pelo poder.

O choque é brutal, sobretudo porque difícil de compreender as razões para ele. O assessor busca na memória suas ações, seus erros e acertos, atrás daquela razão que explicasse a dispensa.

Não é lá que vai encontrar. É na cabeça do político, na sua ambição, na sua postura de “comprador” dos melhores talentos para ajudá-lo, na sua lealdade condicionada, na disciplina que em silêncio adquiriu para subordinar seus sentimentos aos seus planos, que se encontra a verdadeira explicação.

Aquelas mudanças que aos poucos foram sendo adotadas e que representavam novos projetos, novas metas, e que o assessor não deu a devida importância que o transformaram de indispensável em descartável; foram aquelas mudanças no comportamento do chefe, que o assessor interpretou como excesso de trabalho ou esquecimento, que o impediram de perceber a nova dinâmica que estava em curso, e à qual precisava, com urgência, se adaptar.

O sentimento de indispensabilidade é muito gratificante, mas tem o poder de anestesiar o espírito crítico. O assessor deve lembrar-se que foi escolhido por que possuía virtudes de argúcia, lucidez, malícia, sutileza analítica. No poder, não deverá nunca delas se afastar. Deve usá-las em favor de seu chefe, mas deve usá-las, por igual, a seu favor.

Por isso, não se julgue indispensável, torne-se indispensável.