Um traço distintivo da cultura política americana, no que diz respeito à institucionalização do conflito, é a predominância da busca de um compromisso, como mecanismo para resolvê-lo por via de acordo entre as partes.

O espírito de compromisso se expressa por um pressuposto e um procedimento universalmente aceito. O pressuposto é a convicção socialmente compartilhada de que, entre pessoas sensatas, sempre será possível chegar a um acordo entre duas pretensões contraditórias. O procedimento é o engajamento das duas partes numa negociação, cada uma partindo de sua posição inicial rumo a um meio termo que seja aceitável e satisfatório para ambos.

Este padrão de comportamento é tão fortemente internalizado que, mesmo em casos em que o compromisso parece ser impossível para um observador externo, as partes se comportam dentro do pressuposto de que o ponto intermediário do compromisso existe e que deve ser procurado.

É óbvio que, por motivos estratégicos, as partes podem recorrer à tática de evitar o compromisso por certo período de tempo. Não podem, entretanto, exagerar, e jamais podem fechar as portas para negociações. Se o fizerem, sofrerão sanções sociais por parte do grupo que representam e por parte da sociedade.

O compromisso, assim como o sistema partidário, tem um efeito moderador e organizador do conflito político, transformando-se em energia movendo o sistema e não energia destruindo o sistema. Este espírito de compromisso, contudo, não se restringe aos atores políticos, ele penetra a sociedade americana em todos os seus níveis.

Contrariamente à nossa tradição latina, quando duas partes estão em conflito, no sentido lato do termo, em vez de buscar quem tem a razão e quem não a tem, os americanos procuram achar o ponto intermediário do compromisso, pressupondo, desta forma, que ambas as partes possuem parte da razão.

Nossa cultura política tende a conceber a solução para um conflito de interesses sob a forma de sua adjudicação. Isto é, trabalhamos com o pressuposto de que entre uma e outra pretensão há uma que está com a razão, que corresponde às leis ou regulamentações aplicáveis à situação, e outra que não é acolhida pelo direito.

Para nós, incrustrado na nossa cultura política, está a plena convicção de que os conflitos sociais são melhor resolvidos pela sua adjudicação por uma autoridade exterior (extra-partes), ao atribuir razão para uma das partes. Em outras palavras, uma estava certa e a outra errada; uma estava do lado do direito, a outra era injurídica; uma é vitoriosa no seu pleito, a outra é derrotada.

Possivelmente, a preferência pela judicialização do conflito esconda a própria negação da legitimidade do conflito. Esconde também o sentimento de que entre as partes deve haver alguém, em posição de superioridade (como uma figura paterna), que decida quem merece levar a melhor na disputa.

Quando, então, a disposição dominante das autoridades políticas de evitar o desgaste, provocado pela opção por uma das partes, se associa à disposição de livrar-se do problema submetendo-o à adjudicação do conflito, está implicitamente tomada a decisão para as instituições políticas abrirem mão de sua autonomia e coerência e está feito o convite para outros poderes ocuparem o espaço abandonado.

É assim que a tendência à judicialização da política tomou corpo na cultura política brasileira. O alívio do executivo ou do legislativo, que resulta da remessa da ‘batata quente’ para o judiciário, cobra seu preço na crescente perda de relevância institucional, de respeito da cidadania e de amadurecimento democrático das instituições políticas.

É de extrema importância que a classe política brasileira se capacite das consequências negativas, e mesmo perversas, dessa renúncia da responsabilidade de decidir ou legislar para evitar o desgaste político.

O contraste existente entre esse aspecto da nossa cultura política e o que a cultura política americana consagra ajuda a entender porque o procedimento americano ajuda a moderar e resolver conflitos, ao passo que os nossos tornam a resolução dos conflitos mais dificil, demorada e institucionalmente desgastante.

O impacto deste “ethos” de compromisso da cultura política americana sobre as características constitutivas de sua democracia estável é igualmente óbvio. Acima de tudo, o espírito de compromisso facilita a resolução das divergências e, conseqüentemente, é um fator essencial para a eficiência governamental, legitimidade e moderação do conflito.