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O movimento nazista: a víbora amamentada pela democracia

Desde o fim da segunda grande guerra em 1945, os pensadores políticos debatem a seguinte questão: como uma nação tão rica e desenvolvida, e um povo do nível cultural do alemão (a nação de Goethe, Beethoven, Brahms, Rilke, Kant) pode entregar o poder, pelo voto universal e secreto, para a mais brutal, desumana e obscurantista das ditaduras? Há várias obras que descreveram este trágico processo histórico de tentativa de construir uma democracia na Alemanha. Dentre elas destaco duas: The path to dictatorship 1918-1933 (O caminho da ditadura 1918 1933- 10 ensaios de intelectuais alemães) e a de William Halperin, professor de História Moderna na Universidade de Chicago: Germany tried democracy (isto é, “ A Alemanha tentou a democracia” ). Tentou mas não conseguiu. A democracia foi impedida de se instalar de maneira estável, pela ação subversiva e permanente dos dois flancos políticos (a direita e a esquerda), e pela avidez e intransigência dos Aliados, que haviam vencido a I Guerra Mundial.

Masquem realmente derrubou a República de Weimar, e instaurou um regime totalitário brutal foi o nazismo, o mais direitista dos partidos de direita da Alemanha. A esquerda espartacista (partido comunista alemão) apostava num putsch popular para a conquista do poder.

Foto dos acusados pela tentativa de golpe em Munich 1923. Hitler Encontra-se entre Ludendorff (à direita e Roehm (de bigode à sua esquerda)

Por isso também, assim como a direita, desprezava a democracia e negava-se a dar o seu indispensável apoio ao Partido Social Democrata, para defendê-la. Para os comunistas alemães o inimigo não era Hitler e o nazismo, e sim a social democracia e reformismo.

Para a social democracia os inimigos eram os comunistas de um lado, e de outro os conservadores em torno de Hindenburg, que conspiravam para restaurar a monarquia.

Para ambos, Hitler e o movimento nazista não eram uma ameaça. Hitler era um demagogo vulgar, e seu movimento um amontoado de figuras ridículas, e socialmente inexpressivas.

Acreditavam que a Alemanha rumaria, ou para o socialismo de tipo soviético, ou para o socialismo da social democracia, de molde reformista. Segundo eles, o movimento nazista não tinha bases sociais homogêneas para sustentar um partido nas lutas para a tomada do poder.

Tampouco sua ideologia era reconhecida como revolucionária. O líder e seu movimento não teriam muito sucesso, passado seu momento conjuntural de popularidade.

A burguesia alemã também achava o nazismo ridículo, facilmente manipulável, e seu líder, um demagogo útil para combater os socialistas, deslumbrado pelo acesso que lhe foi ensejado ao convívio com a elite alemã, e deles dependente para captar recursos para seu movimento.

A história mostrou a ambos os socialismos, como pode ser trágica a incapacidade de identificar o verdadeiro inimigo e subestima-lo.

A direita alemã, ainda que dividida entre três partidos e as forças armadas, sempre soube se unir quando necessário. A esquerda, nem mesmo diante da catástrofe visível no horizonte, conseguiu se unir para impedi-la. Por razões diferentes, ambos os extremos do espectro político sabotaram a incipiente democracia.

Ora, sempre que os extremos crescem, o centro diminui.

A recente democracia alemã foi entregue à chamada coalizão de Weimar, liderada pelo Partido Social Democrata, a quem a direita passou a imputar a responsabilidade por submeter a nação a “uma covarde rendição, e a assinatura de uma paz ultrajante e desonrosa”.

Ao lado, fotografia feita após acordo sobre o armistício que deu fim à I Guerra Mundial. Este é o vagão do Marechal Ferdinand Foch, comandante do exército francês e o local é a floresta de Compiègne. Foch é o segundo à direita. Essa foi a resposta que os franceses deram à humilhação que lhes foi imposta pelos alemães na Guerra de 1870: assinatura da rendição alemã num apertado vagão de um trem militar. Não esquecer que, em 1871 a rendição francesa fora assinada no Palácio de Versailles

Foi neste contexto que o populismo do partido nazista, mediante o uso oportunista e simultâneo das garantias democráticas combinadas com a franca adoção da violência, da ação direta e da publicidade demagógica, embora eficaz, levou Hitler e o nazismo ao poder.

Ao longo dos anos 20 o partido nazista cresceu e conquistou popularidade. Ao final da década disputava as eleições com sucesso crescente. Hitler chegou a disputar a Presidência contra o Marechal Hindenburg.

A bandeira manchada de sangue no levante nazista de 1923 em Munich

No segundo turno da eleição presidencial Hindenburg venceu com 19 milhões de votos, mas Hitler havia atingido o patamar dos 13 milhões! Aparentemente o partido nazista era um partido como os outros, disputando o poder político pelo voto.

Aparentemente…

As campanhas nazistas, além da busca dos votos, abusavam das ameaças, da violência e brutalidade contra seus adversários.

O movimento nazista produzia uma propaganda política intensa, a explorar as frustrações de um povo orgulhoso, mas derrotado na guerra e humilhado por uma paz degradante que, além da ocupação territorial, exigia o pronto pagamento de indenizações impossíveis de pagar.

Dominados por sentimentos de frustração, insegurança e ressentimento, sensíveis a uma competente publicidade, que explorava aqueles sentimentos, apontando os “inimigos” externos e internos que os haviam causado, os alemães, em 1933, entregaram o poder aos nazistas.

O nazismo atingiu o poder então dentro da democracia, pela adesão às suas formalidades, embora a subvertendo no seu conteúdo.

À tal agressão, os governantes da social democracia opunham as ingênuas tentativas de apaziguamento e de negociação. Autolimitavam-se no uso dos mecanismos legais de defesa, previstos na Constituição e subestimavam a ousadia dos radicais.

Cartoon de propaganda anticomunista: Marx conduzindo os trabalhadores Alemães para o precipício.

Adotaram em relação a Hitler, a mesma atitude básica que Chamberlain iria adotar, 6 anos mais tarde, em relação ao mesmo Hitler, só que em 1939 já de posse do poder, tendo conquistado nações e preparado para a guerra.

Churchill deu o nome a esta atitude: apaziguamento” do inimigo, e deu também a imagem que perduraria:

“alimentam o crocodilo na esperança que os comam por último”

Ou podiam ainda escolher uma outra frase de Churchill sobre o mesmo assunto como uma admoestação a Chamberlain no seu retorno dos acordos de Munich com Hitler:

“podias escolher entre a humilhação e a guerra, escolheste a humilhação, e terás a guerra”

Por fim, desprezaram o sábio e severo conselho de Maquiavel: “Não se adiam guerras inevitáveis”. Em resumo, trataram inimigos como se fossem adversários