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O Plano de Governo: dois planos para duas funções

O plano de governo é uma das maiores preocupações do candidato. Em certos casos chega a ser uma verdadeira obsessão. Enquanto o candidato não o tem concluído, impresso e encadernado, sente-se frágil, inseguro, atemorizado e, despreparado para a eleição.

O plano funciona, em primeiro lugar, como uma “vacina” que imuniza o candidato de um ataque, que é por ele percebido como devastador. “Ser pego sem um plano de governo”, mais que um erro político é um vexame. É a comprovação definitiva do seu despreparo para a função, da desqualificação de sua candidatura.

Este sentimento estimula a ficção de que, para ganhar é preciso ter o melhor Plano, isto é, o mais completo, abrangente e detalhado. Para tal propósito, formam-se equipes de técnicos para cada área da administração, encarregados de redigir os capítulos (setores da administração) que formarão o volume.

Como se trata de redação em grupo a eficiência tende a ser baixa. O trabalho adquire unidade dentro dos capítulos, mas carece usualmente de unidade entre eles, porque a metodologia varia de grupo a grupo; o ritmo depende da disponibilidade de tempo de seus integrantes; e as propostas encontram dificuldades de acomodar-se na estrutura do plano porque, em geral, são elaboradas pela equipe de estratégia e publicidade e não pelos redatores do plano.

Não obstante todas estas dificuldades e problemas, o plano precisa ser elaborado, para que o candidato fique “imunizado”.

A este plano de governo abrangente e detalhado vamos chamar de Plano Completo. Sua utilidade para a campanha é muito limitada. Reduz-se basicamente à função “imunizatória” e referencial, isto é, nele o candidato sempre poderá encontrar dados estatísticos atuais sobre as diferentes áreas de governo (número de leitos hospitalares, número de escolas, dados orçamentários).

Não se faz campanha, entretanto, com o plano completo.

Ele é pouco operacional pelo seu tamanho, pelo volume de informações que possui e pelo seu nível de detalhamento técnico. Poucos o lerão e certamente não há como levá-lo ao eleitor que não tem, nem tempo nem interesse, em acompanhar a eleição em tal profundidade.

Paralelamente à elaboração do plano completo, está em curso a elaboração do Plano Operacional de Campanha. Diferentemente do outro, este não tem a preocupação da abrangência e detalhamento técnico. Seus redatores não são especialistas. São os estrategistas e publicitários.

O plano operacional concentra-se na temática que constitui o “foco” da candidatura, e organiza as informações pertinentes, na perspectiva de como comunicá-las ao eleitor.

Governar implica em administrar todas as áreas. Eleger-se está na dependência de sintonizar a mensagem da candidatura com as prioridades do eleitor.

Os candidatos resistem muito a impor um foco à candidatura. Temem que, ao priorizar um tema e identificar sua campanha com ele perderão votos. Preferem adotar o modelo tradicional, apresentando seqüencialmente, nos programas de rádio e TV, suas propostas para todas as áreas de governo, dando a todas elas igual importância.

Do ponto de vista do candidato que pensa assim, ele está cortejando todos os interesses do eleitor, e, aumentando seu potencial de votos. Do ponto de vista do eleitor o que resulta é a poluição publicitária, a confusão das propostas e a dificuldade de descobrir razões e motivos suficientemente persuasivos para decidir seu voto.

O plano operacional de campanha sustenta com dados e com as principais propostas o discurso básico do candidato e a publicidade da candidatura, na tentativa de fazer a campanha girar em torno do foco escolhido (pautar a campanha).

Isto não significa que o candidato está proibido de pronunciar-se sobre outros temas. Uma das características da “campanha focada” é a sua capacidade de relacionar as demais áreas com o tema central.

Assim, se o tema central for o desenvolvimento econômico, por exemplo, o candidato abordará a questão da educação pelo ângulo de que não se pode ter desenvolvimento sem educação de qualidade, e passa a falar sobre seus projetos para a educação; abordará a questão social (saúde, habitação, saneamento) insistindo que não se faz o desenvolvimento com uma população vivendo em condições tão precárias, e que o desenvolvimento por outro lado é a solução para aqueles problemas; abordará a questão do desemprego dizendo que é uma consequência da estagnação, e que com o desenvolvimento haverá empregos; e assim sucessivamente, sem nunca perder o foco da sua campanha.

Há, pois, na maioria das campanhas, dois planos de governo em uso. Cada um deles atende a uma função específica e necessária. O Plano Completo, além de imunizar o candidato, deve municiá-lo com informações e dados atualizados sobre a realidade.

Por sua parte, o Plano Operacional organiza as informações relevantes para dar sustentação ao foco da candidatura. Ele se constitui na Bíblia” da campanha, repetida e reproduzida, das mais variadas formas, no discurso do candidato, nos programas de TV e Rádio, e na literatura de campanha.