Este é o primeiro e mais decisivo princípio relativo ao exercício do poder. Quem não o conhece e não o respeita pode esquecer qualquer projeto de carreira política. Ele estabelece um limiar mínimo de competência política.

Vencer a eleição, conquistar o poder, é dominar o mais eficiente “atalho” para que sua vontade seja aceita, respeitada e acatada, pelos indivíduos a quem ela se aplica.

É o poder legítimo, embora limitado, do homem sobre o homem, somado ao poder sobre os recursos materiais, que a sociedade disponibiliza à função de governo. Vencer a eleição, conquistar o cargo, significa, pois, adquirir o poder, e, com ele, o acesso àquela “massa de energia” (meios e recursos humanos e materiais), sujeita ao comando de quem dirige o governo, para realizar o programa de governo aprovado nas urnas.

Ganhar a eleição, conquistar o poder, é dominar o mais eficiente “atalho” para que sua vontade seja aceita

Numa democracia, somente se chega a esta condição mediante a vitória eleitoral. Ora, esta vitória é o resultado final de uma disputa entre candidatos ao mesmo cargo.

Por sua vez, esta disputa não é uma competição olímpica. Ela é “uma guerra com data marcada para terminar”, na qual os adversários usam os recursos mais eficientes ao seu alcance, para destruir a imagem de seus competidores, junto ao eleitorado.

Como candidato o político representa uma parte da opinião pública, usualmente associada a um ou mais partidos políticos, mas, embora majoritária, sempre uma parte. Como governante eleito, representa toda a comunidade, seja ela uma cidade, um estado ou o país. Tanto é assim que, passada a eleição, é fundamental para o candidato eleito, produzir uma metamorfose na sua imagem que o transforme, de candidato de um partido em governante de todos.

De qualquer maneira, uma coisa é certa: começado o novo governo, os derrotados ocupam o espaço da oposição, e tentarão, ao longo de todo o mandato, criar dificuldades à ação de governo, e provar, para os eleitores, a incompetência, desqualificação e/ou falta de honestidade dos titulares do governo. A oposição “joga” no erro do governo, nas suas medidas impopulares, nas promessas não cumpridas, nas suas contradições, em suma, em tudo que pode causar desgaste junto ao eleitorado.

Ora, governar significa enfrentar os problemas de recursos e prazos, as dificuldades técnicas de execução, de funcionamento, e de manutenção de toda a estrutura de governo, além dos problemas políticos criados pela oposição. É mais que óbvio, portanto, que não pode “o poder se dar ao luxo de criar problemas para si mesmo”. A oposição já se encarrega com gosto desta função!

Se, além dos problemas que ela cria, você consegue agregar aqueles cometidos por seu governo, no exercício do poder, então a sua competência para governar ficará sob sérias dúvidas e severamente comprometida.

Ter o poder significa ter a capacidade de fazer valer a sua vontade, o seu discernimento, a sua decisão. Errar em matérias importantes é um sinal de grave deficiência no exercício do poder. É criar, por sua própria ação (vontade + discernimento), dificuldades para você mesmo.

Criar problemas para si mesmo é um tipo especial de erro que somente quem tem o poder pode praticar. Atente bem para as suas características principais, para evitar este erro:

  • A ação/decisão que cria os problemas é um produto de livre criação da autoridade. Ninguém a obrigou a praticá-la. É uma ideia, à qual a autoridade atribui certas conseqüências favoráveis e que se revela desastrosa;
  • Existe uma decisão clara da autoridade, que a implementa. Isto é, ela não acontece de modo imperceptível e sim de forma ostensiva como um ato livre de quem detém o poder para tal;
  • A ação/decisão refere-se a uma questão política importante, sobre cujos desdobramentos a autoridade não tem controle absoluto;
  • Desta ação/decisão (que implementou aquela “ideia”) decorrem resultados negativos e prejudiciais, que, antes dela, não existiam.

Como se constata, este tipo especial de erro, é específico do poder. É o poder usando suas prerrogativas para criar problemas para si mesmo. Como consequência, a autoridade vê-se à braços com um problema que não tinha, que agora terá que administrar, e, o que é mais grave, problema que não existiria não fora aquela decisão que o originou.

Normalmente, as dúvidas, os alertas, são descartados sem maior reflexão, quando o poder usa suas prerrogativas para criar problemas para si mesmo

Este tipo de erro tende a ocorrer com maior frequência, quando a autoridade deseja produzir um “lance” ousado, surpreendente e inesperado. Nestes casos, a autoridade se entusiasma tanto, com a antecipação dos efeitos positivos do lance, que só consegue visualizá-lo funcionando na forma desejada.

As advertências, as dúvidas, os alertas, são descartados sem maior reflexão. A atração pelo “lance” torna-se uma obsessão, sobretudo porque se faz acompanhar do temor de perder o “timing”, do medo de que a passagem do tempo diminua o seu efeito, retire o seu poder de surpreender.

Este é o contexto psicológico, no interior do qual aquele erro tantas vezes ocorre. O alerta para o erro não deve, porém, implicar em timidez na produção de “lances”. O político competente terá que produzir os seus, e o sucesso deles é uma marca de excelência política.

Entretanto, o lance tem que ser surpreendente para quem o recebe, não para quem o produz. Este último está obrigado a analisá-lo objetiva e exaustivamente para assegurar-se que terá o controle sobre seus desdobramentos.

Esta é uma matéria sobre a qual não se improvisa. Ela resulta de uma avaliação estratégica, feita em sigilo, mas com todo o rigor, ponderando todas as possibilidades, e antecipando seus desdobramentos.

Assim procedendo, você estará se vacinando contra o mais desmoralizante dos problemas: aquele que você mesmo criou para si.

Não é, entretanto, qualquer tipo de erro que possui todas estas consequências. Erros facilmente corrigíveis e de pequena relevância, ocorrem a todo o momento numa administração. São parte do processo de “tentativa e erro”, que é um processo legítimo de adquirir conhecimento. Não é sobre estes, como é óbvio, que incide a sentença de incompetência política.

Alguns dos problemas mais comuns e frequentes criados pelos governantes:

  • Criar órgãos e nomear pessoas para eles, sem definir antes, com a devida precisão, as tarefas designadas, as competências atribuídas, e a natureza do colegiado – se deliberativo, decisório, opinativo;
  • Dividir poderes e concentrar em si a responsabilidade. Nada é mais destrutivo no governo do que o poder sem a responsabilidade. O “democratismo”, tão em moda no Brasil, é exatamente isso. O governante, numa medida que lhe parece popular, entrega parcela de seu poder a um segmento social (dentro ou fora do governo), embora não transfira junto a responsabilidade legal que possui;
  • Tomar decisões que fecham portas. Isto é, decisões que o obrigam a seguir num único rumo até o fim, e que o impedem de corrigir e modificá-las à medida em que a realidade assim recomenda;
  • Acreditar que um problema está resolvido, quando foi regulamentado por uma portaria ou outro texto legal;