Login

Register

Login

Register

Widget Image

O poder do rádio: A Guerra dos Mundos de Orson Welles

No final dos anos 30, o rádio possuía a mesma importância que tem hoje a televisão na sociedade moderna. Desde os anos 20, o veículo vinha se aprimorando tecnologicamente e, desta forma, se colocando como alternativa de informação e entretenimento ao lado do jornal impresso, até então a única fonte confiável de informação.

A evolução tecnológica fez com que o rádio ganhasse credibilidade e se tornasse cada vez mais ágil e atraente. O uso do telefone pelas emissoras foi uma revolução no jornalismo da época, pois possibilitava as transmissões dos acontecimentos ao vivo, no momento em que eles estavam ocorrendo.

Para aquela época, era um grande avanço, e fascinava os milhões de radiouvintes espalhados por todo o mundo. O veículo tornou-se um sucesso total e as pessoas já não podiam viver sem o seu “aparelho receptor”. Ele estava em casa, no trabalho, na rua, no carro, ou seja, em toda a parte.

Orson Welles mostra o potencial do rádio

No dia 30 de outubro de 1938, um fato inesperado veio demonstrar a importância que o rádio alcançara na sociedade americana. Às nove horas da noite, a rádio norte-americana Columbia Broadcasting System, a CBS, transmitia para os EUA o programa Radio Teatro Mercury.

A dramatização, transmitida às vésperas do Halloween (dia das bruxas) em forma de programa jornalístico, tinha todas as características do radio jornalismo da época, às quais os ouvintes estavam acostumados. Reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de peritos e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emoção dos supostos repórteres e comentaristas. Tudo dava impressão de o fato estar sendo transmitido ao vivo. A peça a ser transmitida naquela noite era “A Invasão dos Marcianos”, uma adaptação da obra “A Guerra dos Mundos”, do escritor inglês H.G.Wells.

No roteiro, centenas de seres extraterrestres vindos do planeta Marte descem, com suas naves fantásticas, numa pequena cidade do estado de New Jersey, chamada Groover’s Mill.

A obra de H.G.Wells foi adaptada para o cinema duas vezes: em 1953 e em 2005

Herbert George Wells foi um dos precursores da literatura de ficção científica. O seu livro A Guerra dos Mundos, tendo Londres como cenário e publicado em 1898, era uma de suas obras mais conhecidas. Ele escreveu num estilo bastante jornalístico e tecnologicamente atualizado para sua época.

A produção e direção do programa foram de autoria do então jovem e desconhecido ator e diretor norte-americano Orson Welles, que na ocasião tinha 23 anos.

A CBS calculou, na época, que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais, metade passou a sintonizá-lo quando já havia começado perdendo a introdução que informava tratar-se do radio teatro semanal.

O efeito foi, literalmente, extraordinário. Calcula-se que pelo menos 1,2 milhão de ouvintes tomaram a dramatização como um fato real, acreditando que estavam acompanhando uma reportagem verdadeira. Este “engano” causou uma série de problemas: sobrecarga de linhas telefônicas, aglomerações nas ruas, congestionamentos de trânsito.

As estimativas dizem que entre um e dois milhões de ouvintes zapeavam seus rádios naquela noite. Os que chegaram à CBS encontraram Guerra dos Mundos a pleno vapor, com a música da Ramon Raquelo Orchestra, transmitida direto do Meridiam Room do Park Plaza Hotel em Nova York interrompida abruptamente pela notícia da queda de um meteoro e a entrevista com um astrônomo da Universidade de Princeton sobre estranhas explosões na superfície de Marte. Poucos notaram que o famoso professor Richard Pierson, de quem ninguém poderia ter ouvido falar, pois não existia, tinha a voz de Orson Welles. Já a música era tocada pela orquestra da rádio sob a regência de Bernard Herrman, futuro autor da trilha sonora de Psicose.

A transmissão continuava interrompendo a programação normal de forma crescente até que o repórter Carl Phillips passava a transmitir em tempo integral de Grover’s Mill, onde descobriu-se que o meteoro era um cilindro de metal. A tensão foi construída cuidadosamente, utilizando entrevistas com autoridades e uma nervosa descrição do monstro saindo do cilindro, que o ator Frank Readick baseou na famosa transmissão do incêndio do dirigível Hindenburg. O primeiro confronto terminou com 40 mortos. No segundo ataque, 7 mil homens do exército, armados com rifles e metralhadoras, foram aniquilados com raios de calor. Novos cilindros foram localizados. Os marcianos prosseguiram para Manhattan, destruindo e matando com gás venenoso, enquanto a Inglaterra, França e Alemanha ofereciam ajuda. A situação era desesperadora.

O tamanho do medo

Tantos anos depois, é difícil saber o que realmente ocorreu naquela noite e qual o tamanho da reação do público. Permanece a ideia de pânico generalizado, telefonemas desesperados para a polícia, grupos armados saindo pela noite em busca dos marcianos, pessoas cobrindo as janelas com panos úmidos e americanos preferindo o suicídio à morte por gás venenoso, como se todo o país tivesse acreditado estar ouvindo uma descrição real de uma invasão do espaço.

Welles chegou a dizer que a polícia foi ao estúdio, mas nenhum outro participante da transmissão disse ter visto o mesmo. Davidson Taylor, supervisor da CBS, queria que Welles interrompesse a transmissão e tranquilizasse os ouvintes que bloquearam as linhas da rádio. Welles teria recusado, dizendo que o público tinha mesmo é de ficar apavorado.

A transmissão durou uma hora, mas, antes que ela findasse, milhares de pessoas, nos Estados Unidos, – por mais extraordinário que pareça! – rezavam, choravam, fugiam espavoridas ante o avanço dos habitantes de Marte! Outros despediam-se dos parentes, pelo telefone, preveniam os vizinhos do perigo que se aproximava, procuravam notícias nos jornais ou noutras estações de rádio, pediam ambulâncias aos hospitais e automóveis à Polícia.

Mais tarde, centenas de pessoas foram ouvidas, num grande inquérito científico realizado pelo psicólogo social Hadley Cantrill. Eis alguns trechos de depoimentos:

MRS. FERGUSON, doméstica de New Jersey: “…Senti que era qualquer coisa de terrível e fui tornada de pânico… Decidimos sair, levámos mantas…

JOSEPH HENDLEY, do Médio Oeste: “…Caímos de joelhos e toda a família rezou…

ARCHIE BVRBANK, encarregada de uma bomba de gasolina: “…O locutor foi asfixiado, por ação dos gases: a estação calou-se. Procurámos sintonizar outra emissora, mas em vão…Enchemos o depósito do carro e preparámo-nos para fugir, o mais depressa possível…”

MRS. JOSLIN, de uma cidade do leste: “…Quando o locutor disse – Abandonem a cidade! – …agarrei o meu filho nos braços, e precipitei-me, pela escada abaixo…”

MRS. DELANEY, dos subúrbios de Nova York: “…Segurava um crucifixo e olhava pela janela, à espera de ver cair meteoros…”

HELEN ANTHONY, colegial de Pensylvania ,: “… .Duas amigas minhas e eu chorávamos, abraçadas, e tudo nos parecia supérfluo, ante a proximidade da morte…

UM ESTUDANTE: “…Cheguei à conclusão de que não havia nada a fazer. Imaginámos que nossos parentes e amigos haviam morrido. Percorri quilómetros em 35 minutos sem saber o que fazia…”

O pânico paralisou três cidades localizadas perto do local em que Orson Welles situou a história. Para dar uma idéia do tumulto causado pelo programa de Welles, basta descrever a manchete do jornal New York Times do dia seguinte:

“Ouvintes de rádio em pânico tomam drama de guerra como verdade”.

A peça radiofônica, de autoria de Howard Koch, com a colaboração de Paul Stewart e baseada na obra de Wells (1866-1946) ficou conhecida também como “rádio do pânico”.

A transmissão de A Guerra dos Mundos foi também um alerta para o próprio meio de comunicação “rádio”. Ficou evidente que sua influência era tão forte a ponto de poder causar reações imprevisíveis nos ouvintes. A invasão dos marcianos não só tornou Orson Welles mundialmente famoso como é, segundo cientistas de comunicação, “o programa que mais marcou a história da mídia no século 20”.

O roteiro fora reescrito pelo próprio Orson Welles (1915-1985). Na peça, ele fazia o papel de professor da Universidade de Princeton, que liderava a resistência à invasão marciana. Orson Welles combinou elementos específicos do radio teatro com os dos noticiários da época (a realidade convertida em relato).

A transmissão de Guerra dos Mundos gerou o programa de Defesa Civil dos Estados Unidos, foi usado por Hitler em um discurso como exemplo da fraqueza dos Estados Unidos e objeto do primeiro estudo acadêmico sobre histeria em massa. O sucesso deu ao Mercury Theater um patrocinador, as sopas Campbell, que trocou o nome do programa para The Campbell Playhouse, assegurou a Welles o contrato com a RKO que o levou a dirigir Cidadão Kane, e a Koch um lugar na Warner, onde ele ganhou o Oscar com o roteiro de Casablanca.

Deve-se ressaltar que só o rádio poderia provocar um fato deste tipo, pois ele tem o poder de fazer com que o ouvinte crie, no seu imaginário o seu próprio cenário, por mais que as descrições sejam feitas pelo narrador. Esta magia se mantém viva até hoje, por isso a mensagem via rádio tem suas peculiaridades e o candidato, ao fazer sua publicidade, deve estar atento a elas.

Abaixo transcrevemos o trecho inicial do script radiofônico feito por Orson Welles no dia 30 de outubro de 1938, no programa “Mercury Theatre”, da CBS, adaptado do clássico de H.G.Wells. Note as artimanhas usadas para prender a atenção dos ouvintes, principalmente as descrições de ambientes e fatos e os efeitos sonoros, típicos da linguagem do rádio.

(A introdução, que muita gente não ouviu, informava que  o programa a seguir era o 17º da série semanal de adaptações radiofônicas realizadas no Radioteatro Mercury por Orson Welles. Para muitos que não a escutaram a reportagem descrita por Orson Welles era um fato que estava ocorrendo e narrado ao vivo.)

A Guerra dos Mundos

Transcrição abaixo do vídeo

Narrador:

“Sabemos agora que, desde os primeiros anos do século vinte, nosso mundo vinha sendo observado por inteligências superiores às do homem e, ainda assim, tão mortais quanto nós. Sabemos agora que enquanto os seres humanos viviam entregues aos seus afazeres eram examinados e estudados, talvez quase tão de perto quanto um homem ao microscópio pode examinar os organismos efêmeros que pululam e se multiplicam numa gota d’água. Com infinita satisfação as pessoas andavam para cá e para lá, tratando de seus pequenos negócios terrenos, na tranquila certeza de seu domínio sobre este pequeno e rodopiante fragmento de matéria solar, que por acaso ou destino o homem herdou do negro mistério do Tempo e do Espaço.”

“No entanto, através do imenso abismo etéreo, mentes que estão para as nossas como as nossas para as feras na selva, imensos cérebros frios, sem simpatia, fitavam esta terra com olhos invejosos e, de modo lento e seguro, traçavam seus planos contra nós. No trigésimo nono ano do século vinte ocorreu a grande desilusão”

Deixa do locutor: Nas próximas 24 horas haverá pouca alteração de temperatura…Este informe meteorológico é de responsabilidade do Instituto de Meteorologia.

Locutor Dois: Agora vamos transmitir do Meridian Room, do Park Plaza Hotel, bem no centro de Nova York, onde ouviremos a música de Ramon Raquello e sua orquestra.

Locutor Três: Com seu toque muito pessoal, Ramon Raquello inicia com “La Cumparsita”. (começa a música)

Locutor Dois: Senhoras e senhores, interrompemos nosso programa musical para levar a vocês um boletim especial da Agência de Notícias Intercontinental. Às 19h40, hora central, o professor Farrell, do Observatório de Monte Jennings, Chicago, Illinois, comunicou estar observando a ocorrência de várias explosões de gás incandescente, a intervalos regulares, no planeta Marte.

O espectrocópio indica que o gás é o hidrogênio e está se movendo com enorme velocidade rumo à Terra. O prof. Pierson, do Observatório de Princeton, confirma a observação de Farrell, e descreve o fenômeno como “igual a um jato de chama azul lançado de uma espingarda”.

Agora fazemos com que voltem à música de Ramon Raquello. (a música toca por alguns momentos até que o número acaba … sons de palmas)

Locutor Dois: Sras e Srs, dando prosseguimento às notícias de nosso boletim de momentos atrás, o Instituto de Meteorologia solicitou aos principais observatórios do país que se mantenham em vigília astronômica para detectar quaisquer perturbações que ocorram no planeta Marte. Devido à natureza incomum dessa ocorrência, conseguimos uma entrevista com o conhecido astrônomo Prof. Pierson, que nos dará suas impressões do fato. (volta a música)

Locutor Dois: Estamos prontos para levá-los ao Observatório de Princeton, onde Carl Phillips, nosso comentarista, entrevistará o famoso astrônomo Prof. Richard Pierson.

Phillips: Aqui é Carl Phillips, falando-lhes do Observatório de Princeton. Encontro-me de pé numa vasta sala semicircular, escura como o breu, a não ser por uma fenda oblonga no teto. O prof. Pierson está diretamente acima de mim, numa pequena plataforma, espiando através das lentes gigantes. Professor, posso dar início às perguntas?

Pierson: Quando queira, sr. Phillips.

Phillips: Professor, poderia contar a nossos ouvintes exatamente o que o Sr. vê quando observa o planeta Marte através de seu telescópio?

Pierson: Nada fora do comum, no momento, senhor Phillips. Um disco vermelho nadando em mar azul.

Phillips: Sendo assim, que explicação tem para estas erupções de gás que estão ocorrendo na superfície do planeta a intervalos regulares?

Pierson: Sr. Phillips, não sei como explicá-las.

Phillips: Prof. Pierson, quanto dista Marte da Terra?

Pierson: Aproximadamente 64 milhões de quilômetros.

Phillips: Bem, parece uma distância bastante tranqüilizadora. Um momento, senhoras e senhores, alguém acaba de entregar um telegrama ao professor Pierson. Professor, posso ler o telegrama para os ouvintes?

Pierson: Certamente, senhor Phillips.

Phillips: Senhoras e senhores, lerei agora um telegrama dirigido ao professor Pierson pelo Dr. Gray, do Museu de História Natural de Nova York: “9,15 p.m. Sismógrafo registrou choque de intensidade quase de terremoto ocorrendo dentro de um raio de 32 km em torno de Princeton. Por favor investigue. Assinado Lloyd Gray. Chefe da Divisão Astronômica”. Professor Pierson, poderia esta ocorrência ter algo a ver com as perturbações observadas em Marte?

Pierson: Dificilmente, sr. Phillips. Isto é provavelmente um meteorito de tamanho fora do comum, e sua chegada nessa hora não passa de uma coincidência. No entanto, efetuaremos uma pesquisa.

Phillips: Obrigado, professor. Voltaremos agora para nossos estúdios em Nova York.

Locutor Dois: Senhoras e Senhores, aqui o último boletim da Agência de Notícias Intercontinental: Às 8,50 p.m. um enorme objeto flamejante, que se julga ser um meteorito, caiu numa fazenda nas vizinhanças de Grovers Mill, Nova Jersey, distante 35 km de Trenton. O clarão no céu foi visível dentro de um raio de várias centenas de quilômetros e o estrondo do impacto foi ouvido até em Elizabeth, no norte. Despachamos uma equipe volante para o local, e nosso comentarista, sr. Phillips, lhes fará uma descrição a viva voz logo que chegue lá.

Phillips: Bem, eu … eu nem sei como começar, para pintar-lhes com palavras a estranha cena que tenho diante de mim, algo como que saído de uma moderna história das Mil e Uma Noites. Bem, mal acabo de chegar. Ainda não tive ocasião de examinar o ambiente. Acho que está ali. Acho que é a … Coisa, bem na minha frente, meio enterrada num imenso buraco. Deve ter batido com uma força terrível. Pelo que posso ver … o objeto parece com um cilindro de enorme tamanho. Deve ter um diâmetro de… 27 metros. O metal de revestimento é … bem. Nunca vi nada igual. A cor é uma espécie de branco-amarelado. Espectadores curiosos se amontoam em torno do objeto.

Phillips: O sr. ainda acha que é um meteorito professor Pierson?

Pierson: Não sei o que pensar. O invólucro é positivamente extraterrestre, feito de metal não encontrado em nosso planeta.

Phillips: Um minuto! Algo está acontecendo! Senhoras e senhores, isto é assustador! A extremidade da Coisa está começando a abrir.

Vozes: ela está se mexendo! O diabo dessa coisa está se desparafusando…

Phillips: Senhoras e senhores, esta é a coisa mais aterradora que jamais testemunhei … um momento! Alguém sai engatinhando pela abertura de cima. Alguém ou alguma coisa. Posso ver que de dentro do buraco negro dois discos luminosos espiam … são olhos? Pode ser um rosto. Pode ser …

(Grito de pavor da multidão.)

Deus do céu, algo está saindo da sombra como uma serpente. Agora outro, e mais outro. Parecem tentáculos. Agora, posso ver o corpo da Coisa. É grande como um urso e brilha como couro molhado. Mas o rosto. Ele … ele é indescritível. Mal consigo continuar olhando. Os olhos são pretos e luzem como os de uma cobra. A boca tem a forma de V, com saliva escorrendo de seus lábios disformes, que parecem tremer e pulsar. O monstro ou seja lá o que for mal pode se mover. Parece puxado para baixo … talvez pela gravidade ou algo parecido. A Coisa está se levantando. A multidão recua. Já viram bastante. É a experiência mais extraordinária. Não encontro palavras … estou arrastando o microfone comigo enquanto falo. Tenho de interromper a descrição até me colocar em outra posição. Aguardem, por favor. Voltarei num minuto.

(Entra música de piano)

Locutor Dois: Estamos apresentando aos senhores um testemunho ocular do que está acontecendo na Fazenda Wilmuth, em Grovers Mill, Nova Jersey. 

Compartilhar