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O programa de Fernando Collor sobre os marajás

Mário Sérgio Conti, no livro “Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor”, narra a história do programa da Rede Globo, no qual o ex-presidente pôs em curso a expressão marajás do serviço público, e que pode ser considerado o início de sua campanha à Presidência da República.

O programa era o “Globo Repórter”. Não era portanto nem um comercial ou programa eleitoral, como os que são apresentados semanalmente nesta coluna. Embora esta ressalva, o programa foi uma peça de publicidade política modelo.

Capa da Revista Veja que mostrava Fernando Collor como o caçador de marajás

A imagem é mais forte que o discurso

Em primeiro lugar porque foi intencionalmente buscado. Como descreve Conti, Collor, orientado por Cláudio Humberto, procurou o diretor de jornalismo da TV Globo, Alberico Souza Cruz, e “vendeu” ao executivo da Globo a idéia de fazer-se uma matéria sobre o empreguismo em Alagoas. Em segundo lugar porque a apresentação da matéria: as cenas filmadas, a fala de Collor, os comentários sobre a questão, no seu conjunto, compunham uma peça de publicidade política de Collor.

O fato de ter sido veiculada num ano não eleitoral, 1987, de ter sido produzido por uma rede de TV comercial e não por um candidato no seu programa, em nada afeta esta condição. Para a Globo, era uma matéria jornalística. Para Collor, era uma peça de publicidade. Independentemente das intenções, o resultado foi o mesmo: uma peça publicitária que projetou Collor no cenário nacional e lançou um novo termo na política brasileira: “marajá”.

Este episódio ilustra emblematicamente o princípio de que se um político “produz fatos” a mídia repercute, e que é possível usar a mídia para fazer publicidade em seu favor. O programa consistia de 6 reportagens. A de Collor era a terceira, e tinha a duração de 10 minutos.

O programa

Collor, então governador de Alagoas, havia baixado uma portaria determinando que todos os funcionários do estado se apresentassem para o trabalho nas repartições em que estavam lotados.

Segundo a narrativa de Conti:

Mostraram-se filas de funcionários para bater o ponto. Uma sala com sete telefonistas para atender um telefone. Dezenas de caminhonetes trazendo pessoas vindas do interior para bater o ponto em Maceió. Provocado pelo repórter, um dos funcionários interioranos disse, deitado num colchonete no porta-malas de uma Kombi: “Enquanto não tiver que trabalhar está bom”. Sentado à cabeceira de uma comprida mesa no Palácio dos Martírios, Collor contou a Francisco José (repórter) que havia famílias em Alagoas que recebiam do estado “mais que o orçamento de muitos municípios brasileiros”. Dito e feito: o repórter mostrou que na folha de pagamentos do estado havia dezenas de funcionários com o sobrenome Suruagy. Somados os salários, a família recebia mensalmente o equivalente a seiscentos salários mínimos.

Collor foi um de seis governadores e prefeitos que apareceram no programa. Seu espaço foi inferior a 10 minutos e ele falou menos que um minuto. Os “marajás”, como analisou Conti, não tinham a aparência de marajás:

Os funcionários apontados como privilegiados eram, pelas roupas puídas e modos desengonçados, pela candura com que olhavam para a câmera, pobres que não tinham onde cair mortos. A indignação de Sérgio Chapelin soava falsa porque era dirigida contra pessoas humildes, que despertavam compaixão e não revolta. Não obstante, a reportagem cumprira a sua função, não prevista pela Globo, de uma poderosa peça publicitária favorável a Collor. As imagens das pessoas nas filas, ou se acotovelando nas salas, sem lugar para sentar, ou mesas para trabalhar, dramatizou visualmente um velho problema brasileiro, cuja extensão ia muito além daqueles pobres funcionários “de roupa puída e modos desengonçados”.

Collor, na época governador de Alagoas, havia baixado uma portaria determinando que todos os funcionários do estado se apresentassem para o trabalho nas repartições em que estavam lotados

Collor lograra mostrar, de maneira chocante, a realidade sobre a qual outros se limitavam a falar, e a imagem é sempre mais forte do que o discurso. O povo viu, por trás daqueles pobres e humildes funcionários, a “legião dos apadrinhados”, “os verdadeiros marajás”, que se vestem bem, usam carros oficiais, viajam pelo mundo, gozam de privilégios e vantagens de toda a ordem, por conta do dinheiro público.

O povo viu também um governador jovem, bem falante, de boa aparência, determinado e corajoso, que, ao contrário dos “outros” políticos, não se limitava a falar, tinha tomado providências. O povo identificou nele um “político novo”, associado a uma luta de enorme ressonância popular. Para culminar, ele havia ainda cunhado uma marca para esta cruzada moralizadora: o “marajá”.

A partir deste lance brilhante, Collor, colou sua imagem à luta contra o empreguismo e corrupção, e à marca que criara. Estavam criadas as condições para o salto da política local para a nacional. Estava dado o primeiro passo para a conquista da Presidência.