“O peixe morre pela boca.” (ditado popular)
“Falar mal, falar demais, falar o que não deve são as formas mais comuns de se errar na política.” (Baltasar Gracián)
“Só se fala para melhorar o silêncio.” (Baltasar Gracián)

A frase de Gracián é brilhante por sua elegância, clareza e concisão.

Em resumo ela quer dizer que, no silêncio há equilíbrio e estabilidade. O falar introduz a mudança, uma nova dinâmica.

Baltasar Gracián, no século XVII, já aconselhava ter muita cautela ao falar

Falar pode significar o erro, a perda, como pode também significar a conquista, e o acerto. Segundo Gracián o sábio somente rompe o silêncio se for para melhorá-lo, isto é acrescentar por suas palavras conhecimento, ilustração e sabedoria.

Falar e ouvir, principalmente falar, é a marca dos políticos e da política. A questão da valorização da palavra torna-se então de suma importância para o político, exatamente pelo uso intensivo e frequente que dela faz no exercício de seu ofício. A questão da valorização não reside, pois, no ato de falar ou não, e sim nos aspectos que circunstanciam o ato de falar, como: a oportunidade escolhida, sobre que falar, o quanto falar, com quem falar, de que forma falar, e, inversamente, sobre que, quando, e com quem não falar.

O político deve, pois, ser prudente ao falar. Cauteloso quando fala com rivais e adversários, reservado quando fala com seus aliados, e com dignidade quando fala com os demais. Não esqueça que a oportunidade de dizer uma palavra, pronunciar um julgamento, dar uma opinião, sempre existe. A capacidade de apagar o que foi dito, lograr que seja esquecido, impedir a sua circulação, esta não existe.

O jogo do poder, como reiteradamente tem sido exposto no site, é um jogo onde as aparências são tão ou mais importantes que a realidade. É um jogo de interesses. Seus participantes querem ganhar. Para ganhar, cada um desenvolve a sua estratégia que sempre se compõe de uma parte visível e outra – a mais importante – que não é visível, a não ser para quem a opera.

Neste jogo, todos estão sempre buscando descobrir a estratégia de seus rivais e adversários. Todos estão envolvidos em uma tarefa de decodificação do significado dos comportamentos (parte visível) para deles inferir, o curso de ação, os objetivos, mediante os quais os adversários tentam vencer (parte invisível).

Ora, quem fala, mais do que precisa e deve, está dando os meios para que sua estratégia seja descoberta. Se você cuidadosamente estabelece controle sobre o que revela, seus adversários terão enormes dificuldades de penetrar o seu plano e descobrir suas intenções.

De Gaulle defendeu o papel exercido pelo mistério na construção e consolidação da liderança política

De Gaulle, o grande estadista francês do Século XX, demonstrou pela palavra e pelo exemplo o papel exercido pelo mistério na construção e consolidação da liderança política:

“Em primeiro lugar, e acima de tudo, não pode haver prestígio sem mistério, pois a familiaridade produz o desprezo. Esta atitude de reserva exige, como regra, uma economia correspondente de palavras e gestos.”

No mesmo texto De Gaulle conclui referindo-se ao silêncio, que para Gracián significava a “marca do talento”:

“Nada reforça mais a autoridade que o silêncio. O silêncio é a maior virtude do forte, o refúgio do fraco, a modéstia do orgulhoso, o orgulho do humilde, a prudência do sábio, e o bom senso dos tolos.”

O silêncio não comete erros

O Cardeal Richelieu, primeiro ministro do rei Luis XIII, célebre por sua obra, composta de conselhos políticos ao monarca, também se pronunciou com muita clareza sobre falar e silenciar na vida política:

“Convém sempre ser comedido ao falar e escrever, e exteriorizar somente o que for necessário. Quando as palavras escapam, através da língua ou da pena, torna-se bem difícil controlá-las.”

Para o Cardeal Richelieu, convém sempre ser comedido ao falar e escrever

O fato é que há razões para tantas e tão eloquentes advertências. O governante ou líder político é diferente do comum dos mortais. Não apenas a posse do poder político o separa dos demais, como, além dela, a posse de informações e conhecimentos secretos ou, no mínimo reservados. Mais ainda, o conhecimento do que vai fazer com seu poder.

Possuir autoridade é, pois, um estigma para quem a detém, e para aqueles que não a possuem. A autoridade do homem sobre o homem é sempre odiosa, e somente é suportável porque sem ela a sociedade não poderia existir. Para torná-la suportável é que se criam sistemas eleitorais, mediante os quais “nós” escolhemos quem deterá aqueles poderes, dentro de limites legais previamente estabelecidos. É desta forma que a autoridade adquire “legitimidade”, isto é, força moral impositiva, aceita como justa, eticamente válida e vinculativa em relação ao nosso comportamento.

O líder político, o governante, é, pois, sempre um enigma para os seus governados, e até mesmo para seus auxiliares. Não se trata apenas de um jogo, ou de uma atração pelo segredo, ou ainda de uma forma de se valorizar. A reserva do governante é a garantia da sua liberdade de ação, da possibilidade de escolher entre alternativas. Por isso o silêncio não comete erros. Enquanto estiver em silêncio (isto é, enquanto não tornar pública sua intenção/decisão) mantém suas alternativas em aberto, sua liberdade de ação preservada, sua capacidade de surpreender incólume.

Há duas lógicas em jogo, na relação entre governante e governados, que é preciso entender bem, para evitar dissabores:

A lógica do governante e a dos “outros”.

A lógica dos “outros” (assessores, auxiliares, aliados, mídia, eleitor, adversários, inimigos) é a de “decodificar a autoridade”, isto é, conhecer tudo que pode ser conhecido sobre quem dela está investido. “Os outros” estão sempre em busca destas informações, seja para proteger-se, seja para beneficiar-se, seja por curiosidade.

Há, pois um trabalho que é levado a cabo diariamente, por todas estas pessoas, com o objetivo de “abrir o livro”, isto é, de conhecer as ideias, opiniões, sentimentos, avaliações e planos, do governante. Se lograrem sucesso, o governante perde grande parte da sua capacidade de governar: desaparece o “mistério”, perde a iniciativa, escapa-lhe a possibilidade de surpreender.

É pela palavra e pelos gestos que o político o mais das vezes revela seu mistério e abre mão de sua imprevisibilidade. Falar, e mais grave ainda, revelar pensamentos, planos, opiniões, torna o político banal, porque previsível, abala os fundamentos de sua liderança, ao revelá-lo tão falastrão quanto as pessoas comuns.

Por isso são tão atraentes as publicações que prometem informações reservadas, por isso há tanta curiosidade sobre a vida pessoal dos líderes. Por outro lado, decodificada a autoridade, não existe mais estratégia nem liberdade de ação para governar.

Destas considerações se constata que a lógica do governante é oposta à dos “outros”. Ele sempre terá interesse em preservar as condições de exercer o poder. Como tal, terá sempre que cultivar a reserva e tornar conhecido apenas o que for necessário.

Gracián vai ao ponto de alertar que o político no poder, não deve expressar suas ideias muito claramente:

“A maioria das pessoas desvaloriza aquilo que facilmente entende, e veneram o que não entendem. Para serem bem valorizadas, as coisas devem ser difíceis. Para conquistar o respeito pareça mais sábio e mais prudente do que seria exigido pela pessoa com quem você está tratando. Faça com que ele fique intrigado e tentando entender o significado do que você falou. Mas faça-o com moderação.”

Por isso, o governante não pode esquecer nunca que o silêncio é seu amigo e a palavra é sempre um risco. Somente com essa consciência ganhará o tempo indispensável para pensar, avaliar alternativas, antecipar consequências, antes de tomar suas decisões. Somente assim, manterá as condições de por em prática a sua estratégia de governo. Somente assim, preservará as condições para usar o “efeito surpresa” a seu favor. Somente assim conseguirá que os governados o respeitem e os inimigos o temam.