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O suicídio de Maiakovski

Vladímir Maiakowski foi o maior poeta russo da era revolucionária. Suicidou-se em abril de 1930 com uma bala no coração, aos 36 anos. Como em outros suicídios levou consigo o mistério de sua decisão fatal.

Tentou se adaptar pessoal e esteticamente à nova sociedade soviética, mas nunca alcançou este objetivo.

Georgiano como Stalin, aos 15 anos ingressou na facção bolshevique do partido Social Democrata Russo. Na Escola de Belas Artes associou-se a outros jovens intelectuais identificando-se com as correntes futuristas, como o cubismo. Assinou o manifesto futurista “Uma bofetada no rosto do gosto público” (1913).

Após a revolução, durante a guerra civil, dedicou-se a fazer cartazes de propaganda, começando então a submeter-se às necessidades do regime, fazendo textos e poemas para uma temática revolucionária exaltando sentimentos de “socialização do ódio e esmagamento de crânios”.

Nesse período esperava-se do poeta bolshevique “a força de um boxeador, as maneiras rudes de meninos de rua e de descarados e insolentes trabalhadores de estradas”.

“Abaixo com o mundo do romantismo
Chega de canções derrotistas e música fúnebre
A fé pessimista de nossos pais
Abaixo com a loucura de possuir em todas suas formas
Seja atleticamente corajoso, com músculos tensionados
Repleto com a religião da ação!
A tua alma!
Mata! Mata!
Bravo: crânios são bons para fazer cinzeiros
Com teus cotovelos ataca as costelas, como lanças de ferro
Com teus punhos esmaga as mandíbulas dos cavalheiros Elegantes, com suas casacas firmemente abotoadas”

É nessa época que Maiakowski escreve seu famoso poema “150 milhões” que se torna uma das marcas indeléveis da propaganda poética da revolução:

Cento e cinquenta milhões
Este é o nome do autor deste poema
O ruído estridente dos tiros e das granadas
Este é o seu ritmo”

Na fase “capitalista” da revolução (1922) sob a égide da NEP (Nova Política Econômica) poetas criavam textos para tudo. Maiakowski que, após sua morte viria a ser denominado por Stalin como o “poeta da revolução”, não hesitou em fazer poemas para assuntos tão pedestres como: a utilidade do sabão, contra as destilarias privadas de vodka, e muitos outros de temas semelhantes.

Foi o grande poeta da revolução, mas sua criatividade explosiva e modernista chocava os líderes bolsheviques e não era apreciada pelas massas que não a entendiam.

2º. À esq. Pasternak, 3º. Eisenstein, a atriz Olga Tretiajova, Lila Brik e Maiakóvski

2º. À esq. Pasternak, 3º. Eisenstein, a atriz Olga Tretiajova, Lila Brik e Maiakovski

Essa contradição ele jamais conseguiu superar. Tentou adaptar seu talento e criatividade a todas as oscilações da poesia provocadas pela revolução. Chegou mesmo a assumir e praticar a poesia coletiva, embora poucos anos antes ele atingira o ápice da arrogância e do individualismo.

O mesmo Maiakowski que no seu poema 150 milhões dá o crédito de sua autoria à massa anônima (os 150 milhões de soviéticos), havia escrito poemas que, não apenas assinava como em vários deles incluía seu nome ao título.

Essa contradição foi resolvida por Stalin, ao criar e impor como modelo absoluto de arte o “realismo socialista”.

Gorky escreveu seu famoso artigo ‘Realismo Socialista’ em 1933, embora o desenvolvimento desta teoria já viesse desde a época da estética revolucionária, como bem ilustra a inusitada originalidade dos concertos de sirenes de fábricas e apitos de máquinas, regido com bandeiras por um “maestro” do alto do mais elevado prédio. Pretendiam assim levar a música à coletividade e torna-la audível para milhões de pessoas simultaneamente substituindo os instrumentos convencionais por apitos, sirenes e outros ruídos próprios da atividade industrial.

Um ano mais tarde, o termo realismo socialista foi atribuído a Stalin que definiu no Congresso do Partido em 1934 a nova ortodoxia estética como:

  • Proletária – relevante e compreensível para os trabalhadores;
  • Típica –  inspirada nas cenas do dia a dia das pessoas;
  • Realística – no sentido de sua representação (não abstrata);
  • Partidária – apoie os objetivos do Estado e do Partido.

Stalin referia-se os artistas do realismo socialista como “engenheiros de almas”. Nada mais de experimentalismo, modernismo, abstracionismo, personalismo, romantismo e, sobretudo de escolas estéticas europeias.

Em 9 de março de 1930 (5 dias antes de seu suicídio) o Pravda publica uma critica direta a ele, acusando-o de esquerdismo. O Pravda refletia obrigatoriamente o pensamento de Stalin, e assim provavelmente Maiakovski entendeu o ataque.

 “A intelectualidade revolucionária pequeno-burguesa que se uniu ao proletariado quando sua vitória já havia se definido e estabelecida firmemente, começa a sentir-se o sal da terra. Desconectada do passado proletário e de sua tradição de luta, a intelectualidade tende a se considerar mais à esquerda e mais revolucionária que o próprio proletariado. Não resta dúvida de que ouvimos uma falsa nota esquerdista em Maiakovski”

Para um intelectual passional, emotivo e sensível não se pode ignorar que este ataque, sem qualquer dúvida orientado por Stalin, a 5 dias da data do suicídio de Maiakovski, teve um papel crucial na sua decisão de se suicidar.

O cortejo fúnebre de Maiakovski reuniu em Moscou 150.000 pessoas, tendo sido superado apenas pelos cortejos de Lenin e Stalin.

Lilya Brik, sua ex-amante, declarou em suas memórias: “A ideia do suicídio era como uma doença crônica dentro dele e, como qualquer doença crônica piorava quando surgiam circunstâncias que, para ele eram indesejáveis.”

Morto Maiakovski a Associação dos Escritores Proletários providenciou para que suas obras publicadas fossem retiradas de circulação e o seu nome deixasse de ser mencionado na imprensa soviética.

Em 1935, Lilya Brik numa carta a Stalin manifestou sua desaprovação indignada contra aquela decisão da Associação dos Escritores Proletários.

Em resposta à carta de Lilya, Stalin mandou para Yezhov (chefe da NKVD) o seguinte bilhete:

“Camarada Yezhov, por favor se encarregue da carta de Brik.
Maiakovski é o melhor e o mais talentoso poeta da nossa era
Soviética. Indiferença em relação à sua herança cultural equivale a
um crime. “As queixas de Brik em minha opinião são justificadas”

Reconhecimento post-mortem. Como em tantos outros casos dos crimes de Stalin fácil de obter quando o interesse político recomendava.

Quanto ao suicídio, seu biógrafo Aleksandr Mikhailov escreveu:

“A pessoa que deixa voluntariamente a vida leva consigo o mistério de sua decisão. Nenhuma explicação penetra na essência real da atitude tomada. Elas somente entreabrem a cortina sobre o segredo, mas o próprio segredo permanece escondido atrás do final triste da vida. (…) Encontramos os motivos, mas o segredo permanece em segredo”.

O bilhete do suicida

Vladímir Maiakovski

Vladímir Maiakovski matou-se no dia 14 de abril de 1930 

“A todos
De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam intrigas.
O defunto odiava isso.
Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída.
Lília, ame-me.
Ao governo: minha família são Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia.
Caso torne a vida delas suportável, obrigado.
Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer.
Como dizem:
caso encerrado, o barco do amor espatifou-se     na rotina.
Acertei as contas com a vida
inútil a lista de dores, desgraças e mágoas mútuas.
Felicidade para quem fica.”