A política é sempre surpreendente. Nela as certezas costumam ser abaladas pelo imprevisível e as previsões frustradas pelos fatos não previstos. Ao longo de mais de 20 séculos de história política registrada, são incontáveis os episódios inesperados e imprevistos, que alteraram os rumos dos acontecimentos, muitas vezes mudando a inclinação dos “pratos da balança”, favorecendo quem se encontrava desfavorecido, e prejudicando quem, até então, aparecia como estando em vantagem.

Por vezes, fatos da vida não previstos se encarregam de provocar essas mudanças de rumo, em outras são as decisões ou não decisões dos governantes e políticos que têm um efeito muito maior do que esperavam.

Este foi o caso do discurso de Gettysburg, pronunciado pelo presidente Abraham Lincoln em 1863, na pequena vila de Gettysburg.

Este discurso tornou-se um marco do pensamento democrático, senão por outra razão pelo fato de que:

  • é um discurso que imediatamente tornou-se célebre, entrando para o panteón dos grandes discursos políticos da humanidade;
  • embora seja também um dos menores discursos pronunciados pela autoridade maior de um país (durou menos de 2 minutos);
  • tornou-se um dos discursos mais citados de todos os tempos;
  • embora Lincoln tivesse absoluta certeza de que fora um fracasso.

Mas vamos conhecer antes algumas circunstâncias pessoais que circunscreveram o ato de Gettysburg.

Em primeiro lugar Lincoln, embora desejasse, não deveria ter ido àquela cerimônia, para celebrar, no local do combate, a inauguração de um cemitério que receberia os corpos dos que tombaram naquela batalha.

Lincoln queria ir a Gettysburg. Precisava consolidar o apoio do estado da Pennsylvania à União Federal, contra os estados do Sul escravagista.

No dia da viagem, seu filho Tad ficou subitamente doente, e sua mulher Mary, num surto de histeria, exigia que ele ficasse em casa. Os Lincolns já haviam enterrado dois filhos, e pode-se imaginar o desespero da mãe com a viagem programada de seu marido. Apesar de tudo, Lincoln decidiu viajar até Gettysburg.

Em segundo lugar, os organizadores do evento não estavam nem um pouco desejosos que Lincoln comparecesse ao evento. O presidente havia sido convidado para o evento só no dia 2 de Novembro. Os organizadores tinham a esperança que a apertada agenda de Lincoln não o permitisse viajar a Gettysburg.

Em terceiro lugar, embora sendo o presidente da república Lincoln não estava na lista dos oradores. A honra do discurso principal pertencia a Edward Everett, reputado orador de Massachussets. Os organizadores da cerimônia ficaram surpresos, quando Lincoln manifestou sua vontade de dizer algumas palavras na cerimônia.

Tendo chegado na véspera à noite, na manhã do dia 19 de novembro Lincoln juntou-se à procissão de aproximadamente 20 mil pessoas, que se dirigia para o local do cemitério.

A narrativa apresentada a seguir é de um assessor de Lincoln que o acompanhara na viagem: 

“Depois de um pequeno atraso, Mr. Everett ocupou seu lugar no palanque, e Mr. Stockton fez uma prece que mais parecia um discurso; e Mr.Everett falou como sempre fala, com perfeição (falou por duas horas). O presidente então, de uma forma livre e sensível, com mais elegância e dignidade do que é seu hábito. Disse as suas meia dúzia de palavras de consagração do cemitério, e, com a música fúnebre, fomos embora através das ruas congestionadas e barulhentas”.

É significativo que nem o assessor de Lincoln percebeu que era testemunha de um momento histórico, e que ouvira um discurso que já nascia célebre e brilhante. É bem verdade que este assessor relata sua saga etílica da noite anterior, cujos efeitos na manhã seguinte talvez prejudicassem sua percepção.

Mas Lincoln também teve a mesma impressão. A resposta do público ao discurso de Lincoln foi o silêncio, talvez pegos de surpresa pela curta duração do discurso. Lincoln chegou a comentar que seu discurso tinha sido um rotundo fracasso.

Nos dias seguintes, entretanto, quando o discurso foi amplamente difundido pelos jornais, a opinião pública premiou o presidente com sua entusiasmada aprovação.

Este discurso de Lincoln extrapolou os limites da história americana, para constituir-se num dos marcos da história da luta pela liberdade humana.

É um discurso breve, no qual cada palavra escolhida preenche a sua função, para compor uma peça singular, que combina força com serenidade e sobriedade com esperança.

Foi pronunciado quatro meses e meio depois da mais importante vitória do Norte sobre o Sul, nas cercanias da cidade que lhe deu o nome.

Eleito Presidente da República em 1860, Lincoln havia se comprometido a estancar a escravidão, mas não havia chegado ao ponto de comprometer-se em abolí-la.

Os estados do sul, entretanto, encararam a sua eleição como uma ameaça contra seus costumes e instituições (dentre as quais a continuidade da escravidão), e decidiram separar-se do país.

A guerra civil começou com o objetivo de reunificar a nação, um objetivo definidamente político. Na medida em que a guerra avançou, e a violência dos combates revelava a intensidade do conflito e dos sentimentos de hostilidade que o alimentava, Lincoln evoluiu do terreno político para o moral.

Passo a passo Lincoln deslocou a justificativa para a guerra fratricida, do objetivo de defender a união nacional(político), para o objetivo maior da defesa da igualdade e da liberdade, como a condição natural do ser humano.

No dia 1º de janeiro de 1863 Lincoln havia assinado a Proclamação da Emancipação dos Escravos, naquele momento ainda de validade restrita aos territórios sob a autoridade do Norte. A guerra ainda não havia sido vencida.

Em novembro do mesmo ano, ao pronunciar o discurso de Gettysburg, o Norte já havia colhido importantes vitórias, embora ainda não se pudesse dizer que havia vencido a guerra. É neste contexto histórico que o discurso foi pronunciado, para celebrar a inauguração de um cemitério no local do combate, para receber os corpos dos que tombaram naquela batalha.

Nele Lincoln situa o episódio da Guerra Civil dentro da longa luta pela igualdade e liberdade, concluindo com a clássica definição de democracia, universalmente adotada como sendo o “governo do povo, pelo povo e para o povo”.

O discurso

“Há 87 anos atrás, nossos pais criaram neste continente uma nova nação, concebida em liberdade e dedicada ao princípio de que todos os homens são criados iguais.

Agora estamos em plena guerra civil, sendo testados, se aquela nação, ou qualquer outra assim concebida e assim dedicada, é capaz de resistir e sobreviver.

Nós nos encontramos num dos grandes campos de batalha daquela guerra. Aqui estamos para dedicar uma parte deste campo como o repouso final daqueles que aqui deram a sua vida para que aquela nação possa sobreviver. É justo e apropriado que façamos isto.

Mas, num sentido mais amplo, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este campo.

Os bravos homens, vivos ou mortos, que aqui lutaram já o consagraram, muito além do nosso pobre poder para acrescentar ou subtrair alguma coisa.

O mundo não dará muita atenção, nem lembrará por muito tempo o que dissermos aqui hoje. Mas o mundo nunca esquecerá o que eles fizeram neste campo.

Somos nós, os que estamos vivos, que devemos dedicar-nos ao compromisso de completar a grande obra não concluída, que aqueles que aqui lutaram, com tanta nobreza fizeram avançar.

Somos nós que devemos dedicar-nos à grande tarefa que ainda está diante de nós (…) de que estamos resolvidos a não permitir que estes mortos tenham morrido em vão, de que esta nação sob Deus possa ter um novo nascimento de liberdade, e de que aquele governo do povo, pelo povo, e para o povo não desapareça da face da terra.”