A democracia surgiu na Grécia clássica, e, desde logo adquiriu diferentes significados, para diferentes pensadores. No conceito de Platão, por exemplo, ela não possuía o mesmo significado que Aristóteles lhe atribuía.

O termo democracia provém do grego: demos (povo) e kratos (poder), portanto, desde seus primórdios (meados do século V para o IV AC) democracia sempre teve a conotação de poder do povo, poder popular.

Ao longo da história ocidental, o conceito de democracia, ainda que sempre conotando participação popular, continuou adquirindo variadas configurações institucionais, de acordo com o autor que sobre ela escrevia.

origem da democracia
A Escola de Atenas – Rafael Sanzio No centro aparecem Platão e Aristóteles

Não obstante, ainda que não haja uma definição específica de democracia que tenha conquistado aceitação universal, dois princípios básicos estão presentes na grande maioria das definições: a igualdade e a liberdade; sem os quais, como disse Lincoln, “aquele governo do povo, para o povo e pelo povo” jamais conseguiria alcançar a qualidade da autenticidade.

No nosso tempo essa variedade de significados perdura, já que, desde o século passado, a maioria dos regimes políticos busca vestir-se com o título e as roupagens da democracia.

Assim temos “democracia liberal”, “democracia social”, “democracia representativa”, “democracia direta”, “democracia popular”, “democracia socialista”, “democracia participativa”, “democracia plebiscitária”, “democracia deliberativa”, “democracia radical”, “democracia burguesa” e muitos outros.

A ambiguidade do termo democracia não se limita a esses adjetivos que lhe são agregados. Ela se encontra ainda nas diferentes conceituações, que os teóricos, estudiosos, e cientistas atribuem a cada um daqueles conceitos, além da diferente sinonímia que alguns autores usam, para fugir àquela ambiguidade.

Para ficarmos na origem do termo, voltemos à Grécia antiga. Para Platão, democracia era o penúltimo degrau da deterioração das formas de governo.

Na parte dedicada às formas de governo, na sua obra A República, Platão descreve uma dinâmica de progressiva deterioração de uma forma superior para uma inferior, até a última, a tirania, a pior de todas as formas de governo.

Essa dinâmica de deterioração não era, entretanto, uma descrição do processo histórico real.

Era uma concepção teórica, segundo a qual, a partir da degradação do estado ideal, (produto perfeito de uma mente perfeita) todas as demais formas de governo logicamente emergiriam.

Para Platão, na República, e aí reside uma notável e histórica descoberta, a mudança de uma forma para outra, resultava de uma transformação interna da forma em substituição.

Platão inaugurava a análise dialética aplicada à política, segundo a qual, a origem de um sistema político encontrava se nas contradições do sistema que o antecedia. Em outras palavras um sistema político trazia no seu interior as sementes de desenvolvimento do sistema que o iria substituir.

Aristóteles entendeu mal Platão ao criticá-lo, com a irrelevante observação de que as formas de governo não mudavam no plano histórico, na forma e sequência que Platão enunciara.

Como foi dito, Platão pensara em termos abstratos e ideais, numa lógica de desagregação a partir da forma perfeita de governo que, sendo perfeita, só podia mudar para pior, enquanto Aristóteles estava interessado em classificá-las de acordo com sua realidade histórica.

Aristóteles estudou mais de uma centena de sistemas políticos das Polis gregas, para redigir sua obra igualmente clássica A constituição de Atenas.

Já na outra obra política de Platão, as Leis, ele levou em conta a realidade histórica e sociológica, dividindo as formas de governo na famosa classificação sêxtupla, que depois será utilizada por Aristóteles na sua obra A Política, e que será transformada em ortodoxia política pela maior parte da Idade Média.

Aristóteles na Política, divide as formas de governo com base em dois critérios: o número de governantes e a natureza ética do governo. Assim os governos podiam ser, de acordo com o critério do número, governo de um, de poucos ou de muitos e, de acordo com o critério ético, governos que buscavam a virtude ou governos que atendiam a interesses que ele chamava de pervertidos.

A combinação dos dois critérios forma uma tabela de 6 células.

O governo de um para o bem de todos era a monarquia, a forma mais perfeita de governo.

O governo de um no interesse de um era a tirania, a mais depravada e pervertida forma de governo.

O governo de poucos para o bem de todos era a aristocracia, quase tão perfeita como a monarquia.

O governo de poucos no interesse de poucos era a oligarquia, porque desdenhando a virtude segue o princípio egoísta do interesse e, como declara Platão “os muitos sempre são os pobres e os poucos sempre são os ricos” é uma forma de governo a serviço dos interesses dos ricos.

O governo de muitos para o bem de todos era a politéia nome que Aristóteles deu à democracia cuja base era a classe média. A politéia, dito de outra forma, era a democracia capaz de controlar o egoísmo e os interesses individuais, grupais, ou coletivos, em prol do bem de todos.

O governo de muitos no interesse dos muitos era a democracia, já que, descompromissada com as virtudes, tornava-se o regime da liberdade sem controles, do conflito aberto de interesses, da desordem e da instabilidade.