Na linguagem política corrente e acadêmica, os conceitos de ator e de papel social/político, extraídos do mundo artístico, em especial do teatro, são freqüentemente usados para significar o agente da ação e o comportamento padrão que dele se espera.

É comum falar-se no “papel” que alguém desempenha nas mais diferentes organizações da vida social. O papel na família, na igreja, no sindicato, no partido político, no governo etc.

Com o nome de “papel” estamos sempre a indicar uma posição que vai além da sua mera definição formal ou tradicional. Na sociologia e política tradicionais, falava-se em cargos e não em papéis, em instituições e não em estruturas. O problema não é meramente semântico.

Cargo e instituição são conceitos que supõe um grau de formalização que somente sociedades modernas atingiram e dirigem nossas atenções para normas, regras e leis.

Papéis e estrutura permitem-nos comparar quaisquer duas ou mais sociedades, em diferentes níveis de desenvolvimento social, cultural, político ou econômico, e dirigem nossa atenção para comportamentos reais, socialmente necessários e observáveis.

A moderna análise política, ao trabalhar com esses conceitos, escapa do viez tradicional da política vista pela ótica do formalismo jurídico, reconciliando-a com a sua base sociológica.

A unidade básica da vida social: relação social entre indivíduos no desempenho de papéis

A unidade básica da vida social, o menor elemento ao qual ela pode ser reduzida, não é o indivíduo isoladamente, e sim a relação social.

Pode-se dizer que há relação social quando indivíduos ou grupos de indivíduos têm expectativas recíprocas em relação ao comportamento dos outros com quem interagem, de modo que tendem a agir de maneiras relativamente padronizadas.

Alguns exemplos: relação médico/paciente; professor/aluno; policial/motorista; vendedor/comprador; político/eleitor.

Agir de maneira relativamente padronizada” significa que as relações sociais, por serem recorrentes, tendem a adquirir regularidade, a repetir-se.

Nós temos uma série de “rotinas” que adotamos para orientar nossa forma de agir em diferentes situações sociais.

Sem essas rotinas, a vida social estaria carregada de imprevisibilidade, toda interação seria uma incógnita quanto à sua forma e consequências. A sociedade seria então inviável, porque nenhuma forma organizada de vida social pode existir sem alguma previsibilidade.

Por outro lado, as relações sociais tendem a se padronizar porque os indivíduos trazem para a relação não a sua personalidade total e sim aspectos, setores, de sua personalidade. A imagem de um político, por exemplo, significa a sua apresentação social para credenciar-se à ocupação de um determinado papel na vida política. O que se conhece de um político é sua imagem e não sua personalidade total.

Algumas relações (poucas) implicam no envolvimento completo da pessoa. A relação de amor por exemplo. Essas relações onde o indivíduo atua como pessoa são poucas, segregadas e muito seletivas. Sobre elas não se edificam organizações. É o campo da liberdade, do sentimento, da espontaneidade.

Na vida em sociedade, entretanto, a quase totalidade das relações sociais são menos abrangentes e menos envolventes. São específicas, limitadas, “regulamentadas” e, portanto, padronizadas. Resultam dos múltiplos papéis que desempenhamos. Por exemplo:

Ao sair de casa relacionamo-nos com nossos filhos como pai ou mãe; ao dirigir na rua relacionamo-nos com outros motoristas, pedestres, e policiais como motorista ; ao chegar no comitê para a reunião, como político; passando no super mercado como consumidor; ao ir ao teatro, como espectador; ao passar na casa dos pais, como filho; em casa, ao consultar por telefone o advogado sobre uma questão, como cliente; e assim sucessivamente.

O que há de comum entre todas estas relações?

A pessoa é a mesma, mas para cada uma das relações sociais em que se envolveu a posição social do ator é diferente. São diferentes e específicas porque, para cada uma delas preexistiam certas expectativas padronizadas que condicionaram a sua maneira de agir.

São diferentes porque não se espera que o indivíduo como médico comporte-se como pai, ou espectador; ou como cliente se comporte como filho. São específicas porque a “rotina” muda conforme muda a interação. Para cada uma há um “script” próprio, e até mesmo “rituais” de execução.

Como os papéis sociais e as expectativas que lhes dão conteúdo sobrevivem aos indivíduos, eles são unidades que podem formar as estruturas sociais e, em última análise, o próprio sistema social. O sistema social (político, econômico) edifica-se sobre papéis organizados em estruturas, e não sobre as pessoas na radical singularidade de sua personalidade.

Na verdade, quando as estruturas se personalizam a sociedade se fragiliza. Em nenhum sistema da sociedade essa fragilização fica mais evidente do que na política.

Quando uma instituição ou organização personaliza-se num indivíduo, ela perde sua majestade, sua legitimidade e adquire em troca, todas as fragilidades daquele indivíduo.

Papéis sociais são desempenhados por atores

O conceito de papel está estreitamente vinculado ao conceito de “ator”. Os papéis são desempenhados por atores. O papel de Hamlet sobreviveu e sobreviverá a todos os atores que o interpretaram e, embora haja variações pessoais na interpretação de cada um, há marcos definidos e parâmetros estabelecidos (texto) que definem o papel de um Hamlet básico para todos.

De forma análoga, o papel de Presidente da República, implica num mesmo “script” – constitucionalmente fixado – para todos. Mas, cada um possui o seu espaço de liberdade para conferir a marca pessoal do seu talento/ou falta de, na interpretação do papel. Assim, o papel de Presidente sobrevive a todos que o interpretam, não se identificando de forma absoluta e excludente com nenhum.

O sistema político, com as estruturas que o compõem, constrói-se sobre a relação entre papéis, e não entre pessoas, circunstancialmente desempenhando seus papéis.

Por isso ele adquire estabilidade no tempo; por isso é possível a substituição de indivíduos sem mudar o papel; por isso a política torna-se inteligível e previsível: porque se apoia em expectativas padronizadas e legalmente sancionadas, sobre o desempenho dos papéis e não sobre a imprevisibilidade do comportamento individual.

Papéis, portanto, supõem sempre a possibilidade de substituir um ator por outro, sem prejuízo do resultado da atividade. O conteúdo dos papéis sociais é culturalmente definido. Assim, um mesmo papel (Pai, professor, médico, motorista) terá direitos e responsabilidades diferentes de uma sociedade para outra.

O desempenho de papéis sociais, entretanto, não é inato ao individuo. Muito ao contrário é o resultado de um processo de aprendizado (socialização). Cada novo papel implica num novo aprendizado.

Qual a utilidade destes conceitos para entendermos a sociedade, a política e suas respectivas organizações?

  • A compreensão de que o fato de que os indivíduos morrem (mesmo os que originaram a sociedade) e a sociedade continua existindo, torna-se mais inteligível. A organização da sociedade se edifica sobre papéis e estruturas e não sobre as pessoas. Esses, entretanto, ao interpretar os papéis dão vida à sociedade. Novos ocupantes substituem os anteriores, depois de receberem o treinamento adequado (socialização), dando-se desta forma continuidade à organização social;
  • Faz-nos conscientes do quanto nosso comportamento é socialmente condicionado. Uma sociedade é um empreendimento coletivo de enorme complexidade, e a vida social só é possível porque contamos que as pessoas com as quais interagimos desempenhem apropriadamente seus respectivos papéis;
  • Explica por que é necessário dispor de um sistema de gratificação e punição para assegurar que as pessoas atuem em conformidade com as expectativas de comportamento que definem o papel. Exatamente porque a vida em sociedade depende do eficiente e regular desempenho dos papéis culturalmente definidos, o adequado desempenho é gratificado e os desvios são punidos. Esta punição pode ser informal (família) ou pode ser formal (sanções penais).

Quanto mais importante, mais necessário e, logicamente menos substituível for o papel, mais severa será a punição do desvio, e maiores serão as gratificações e honrarias tributadas à conformidade.

Entretanto, a própria existência de sanções indica que desvios entre expectativas e comportamento ocorrem e que a sociedade não pode depender apenas da espontânea boa disposição dos atores para cumprirem seus papéis a contento.

Desvios existem, não somente porque o homem não é um ser perfeito, mas também por motivos de natureza social.

Quatro causas principais são responsáveis pelos desvios:

  1. O ator rejeita a definição do conteúdo do papel;
  2. O papel não possui clara definição das expectativas, incorpora elevado grau de ambiguidade;
  3. O ator foi deficientemente socializado para o papel;
  4. O ator encontra-se em situação de conflito de papéis.

Médicos normalmente não tratam seus parentes mais próximos, recorrendo a colegas para o tratamento. Isto se deve ao fato de que o ator (médico) enfrentaria uma dificuldade enorme para dissociar seu papel de pai, marido, filho, do papel de médico.

O papel do médico exige objetividade e frieza para lidar com a moléstia e o seu tratamento, o que só se consegue com um distanciamento afetivo. Já o papel de familiar implica em solidariedade irrestrita e profundo e total envolvimento emocional.

Aqui está em toda a sua inteireza o conflito de papéis: o indivíduo é chamado a atender simultaneamente expectativas incompatíveis entre si.

Há muitos outros exemplos: o fiscal de tráfego multando um parente, o aluno recebendo solicitação de cola, o político ao nomear um amigo.

Quanto maior for o número de pessoas que conformam seu comportamento às expectativas dos papéis, mais elevado é o nível de organização e eficiência da sociedade.

O conflito de papéis pode tornar-se psicologicamente muito difícil de suportar e, uma saída comum nestes casos, é a omissão de agir, a fuga da decisão ou o desvio de comportamento.

Assim como há conflito de papéis, há também reforço de papéis. Quando o desempenho de um papel, de acordo com as expectativas que o circunstanciam, é compatível e até coincidente com o desempenho em outros papéis, as chances de desvio diminuem e de conformidade aumentam.

Na sociologia e política tradicionais, falava-se em cargos e não em papéis, em instituições e não em estruturas. O problema não é meramente semântico. Cargo e instituição são conceitos que supõe um grau de formalização que somente sociedades modernas atingiram, e dirigem nossas atenções para normas, regras e leis.

Papéis e estrutura permitem-nos comparar quaisquer duas ou mais sociedades, em diferentes níveis de desenvolvimento social, cultural, político ou econômico, e dirigem nossa atenção para comportamentos reais e observáveis.

É com conceitos como estes que se deve analisar o Sistema Político. Com eles haverá condições de apreender a realidade política sempre dentro de um quadro referencial mais abrangente, como um setor especializado da vida em sociedade.