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Os intermináveis aplausos a Stalin

Quem tem a ousadia de parar de aplaudir primeiro?

Os episódios que relatam os intermináveis aplausos a Stalin – na sua presença ou meramente na menção à sua pessoa num discurso – são muito referidos na literatura sobre a União Soviética, pelo seu conteúdo realmente tragicômico.

Trágico por que revelam os extremos a que chegaram o terror e o culto à personalidade do ditador soviético e cômico, pelo inusitado da situação em que se encontravam as pessoas que participavam do evento.

Solzhenitsin (Arquipélago Gulag); Edvar Radzinski (Stalin) uma das melhores biografias); Robert Conquest (Stalin Breaker of Nations) autor da obra clássica sobre os processos de Moscou (The Great Terror a Reassesment) são alguns dos autores que descrevem esta mesma situação em momentos e locais diferentes.

É a natureza reveladora e tragicômica deste episódio que o tornou um retrato perfeito da tirania totalitária. No vídeo abaixo você poderá experimentar a angústia que se sente ao ouvir a explosão de aplausos que dura mais de 10 minutos ininterruptos.

SOLZHENITZIN

(Arquipélago gulag)

“Eis um pequeno quadro daqueles anos: está decorrendo (na região de Moscou) uma conferência do Partido. É dirigida por um novo secretário, em substituição ao recentemente detido. No fim da conferência é aprovada uma mensagem de felicidade ao Camarada Stálin.

Como se compreende, todos se põem de pé (do mesmo modo que no decorrer da conferência todos saltavam da cadeira cada vez que era mencionado o seu nome). Ressoam “tempestuosos aplausos que se transformam em ovação”. Passam três, quatro, cinco minutos e são cada vez mais tempestuosos os aplausos, redundando numa ovação.

Mas afinal começam a doer as mãos. Fatigam-se os braços levantados, já vão sufocando as pessoas idosas. Aquilo passa a ser estúpido até para aqueles que sinceramente admiram Stálin. Entretanto, quem é o primeiro que se atreve a parar? Poderia fazê-lo o secretário da zona, que se encontra de pé na tribuna e acaba de ler essa mensagem? Mas ele está ali há pouco tempo e encontra-se no lugar do recentemente detido, tendo ele próprio medo! Na verdade, na sala estão também de pé, aplaudindo, membros da NKVD e eles observam quem é o primeiro que se atreve a parar!… E os aplausos prolongam-se por seis minutos! Sete Minutos! Oito minutos! … eles sucumbem! Estão todos perdidos. Não podem parar, enquanto não tombarem com os corações despedaçados? Ainda no fundo da sala, no meio do aperto, pode-se ludibriar um pouco, aplaudir mais devagar, não tão forte, não tão furiosamente, mas que podem fazer os que estão no pódio à vista de todos? Decorre o nono minuto! O décimo! Ele olha aborrecido para o secretário do partido da zona, mas fingindo êxtase nos rostos, os dirigentes da zona aplaudiram até cair. Até que fossem levados em macas! E, até esse momento, os restantes não vacilaram!… O diretor da fábrica de papel, no décimo primeiro minuto, fingindo-se atarefado, deixa-se cair no seu lugar, no pódio. Esvaiu-se então o incontível, indescritível entusiasmo geral? De repente pararam no meio do mesmo aplauso e se sentaram todos de uma vez. Estão salvos! O esquilo teve a ideia de sair da roda!…

É dessa forma que se conhecem as pessoas independentes. E é dessa forma que são postas de lado. Nesta mesma noite, o diretor da fábrica é preso. Com facilidade aplicam-lhe por outro motivo dez anos. Mas depois da assinatura no 206 (documento que conclui as investigações) o comissário instrutor recorda-lhe:

Nunca seja o primeiro a deixar de aplaudir!”

EDVAR RADZINSKI

(Stalin)

Stalin promulgou a nova constituição por ocasião do VIII Congresso Extraordinário dos Soviets. Os jornais dedicaram especial atenção às cartas dos delegados do Congresso. Um desses, A. Sukov, um operário escreveu:

“Em meio a uma tempestade de entusiásticos aplausos para o criador da Constituição, o grande Stalin, o Congresso por absoluta unanimidade resolveu aceitar o texto como base para discussão.É difícil descrever o que aconteceu no salão do Kremlin. Todos se ergueram e saudaram o líder com um prolongado aplauso.

O camarada Stalin, em pé sobre a plataforma, erguia sua mão pedindo por silêncio. Ele convidou a todos, por várias vezes, para se sentarem. Não adiantou. Nós cantávamos a Internacional e a ovação recomeçou. O camarada Stalin voltou-se para os que estavam na plataforma, pedindo a eles para conseguir o silêncio. Ele apontava para seu relógio e mostrava-o para nós.Nós havíamos perdido a noção do tempo”

ROBERT CONQUEST

(Stalin – Breaker of Nations)

“Alguns resultados (do culto da personalidade) eram tão absurdos quanto aterradores, Numa reunião provincial começou uma ovação quando o nome de Stalin foi mencionado, e ninguém ousava a ser o primeiro a sentar-se. Quando, finalmente, um homem idoso, que não aguentava mais ficar em pé sentou-se, seu nome foi anotado e ele foi preso no dia seguinte.”

“Quando um discurso de Stalin foi gravado para gramofone, em 4 discos de dois lados, o oitavo lado foi inteiramente dedicado ao aplauso…”

É bastante conhecida a afirmação de que o mais longo aplauso da história teria sido tributado a Luciano Pavarotti que teria durado 6 minutos. Perdeu para Stalin, um dos piores tiranos da história que durou 11 longuíssimos minutos. Uma ironia cruel.

“Por que as pessoas aplaudem um tirano?

Obviamente por temor.

Como ninguém está a salvo, a maioria das pessoas se apressava a demonstrar por palavras e atos que eram leais e entusiastas.

A arbitrariedade é o verdadeiro argumento do terror. Se não há regras, justificativas ou razões conhecidas, então todos estão a perigo.

A segurança pessoal é comprada ao preço da obediência explícita e da lealdade abertamente declarada. Os ditadores, sabendo disso criam as ‘manifestações espontâneas’ e as oportunidades para bajulação.

Parte da resposta se encontra no fato de que o poder absoluto reduz o partido, assim como o conjunto da população a uma coletividade de indivíduos isolados, que competiam entre si por mostrar maior fervor e lealdade.

Mas não é apenas o medo a causa deste comportamento.

Todos tinham participado da violência contra sua própria população ao aprovar as execuções, as farsas judiciais e quem os chefes do partido haviam decidido que eram os inimigos em cada momento. Como disse um velho bolchevique: ‘estávamos todos com o sangue à altura do cotovelo’.

O crime une, cria cumplicidades e não devemos esquecer que o sangue é um poderoso cimento ideológico. Quando se vai tão longe cometendo toda a sorte de atrocidades, a causa deve ser grande, excepcional. Deve estar à altura do sangue derramado, embora deixe seus seguidores sem qualquer argumento (para justifica-los).”