A história dos 3 filhos de Catarina de Medicis que foram reis franceses e do genro protestante que se converteu ao catolicismo por três vezes e tornou-se um dos maiores reis da França: Henrique IV de Navarra

Henrique IV foi o primeiro rei francês da dinastia dos Bourbons. Nasceu em Pau em 13 de dezembro de 1553, filho da rainha Joana III de Navarra e Antônio de Bourbon, Duque de Vendôme e Rei de Navarra. Foi criado na religião protestante por sua mãe que, tendo se tornado rainha por viuvez, havia declarado o Calvinismo como a religião oficial de Navarra.

Henrique herdou o trono com a morte de sua mãe em 1572.

Neste mesmo ano sua vida ficará estreitamente ligada à França, à rainha francesa Catarina de Medicis, aos seus três filhos (todos serão reis da França), à Margarete (Rainha Margot), também filha de Catarina, com quem se casará em agosto deste mesmo ano, às guerras religiosas da política francesa, até tornar-se Henrique IV rei da França depois da última de suas 3 conversões ao catolicismo.

Casamento com a “rainha Margot”

Henrique de Navarra foi escolhido por Catarina de Medici, para casar com sua filha, a bela Margot. 

Catarina de Medicis

Catarina, mãe de Margot, era viúva de Henrique II, morto a 10 de julho de 1559,  em decorrência de um golpe de lança no rosto numa ‘justa equestre”.

A morte de Henrique II ocorreu após a previsão que dela fez Nostradamus. Previsão que, por acertada em detalhes, criou sua fama que até hoje sobrevive. Sobre Henrique II ele escreveu:

O jovem leão vencerá o velho
No campo de batalha num único combate
Trespassar-lhe-á os olhos
Na sua jaula de ouro
Duas feridas numa, padecerá de uma morte cruel

A profecia cumpriu-se 4 anos mais tarde, em 1559, quando Henrique, cujo emblema heráldico ostentava “um leão”, disputou uma luta amigável com um jovem oficial de nome Montgomery, capitão da Guarda Escocesa do Rei Frances.

A lança do escocês penetrou na viseira de seu elmo dourado  (“a jaula de ouro”) perfurou seu olho(“trespassar-lhe-á  os olhos”) ferindo-o na vista e na garganta ( “duas feridas numa”) , uma lasca atingiu o cérebro do rei e nem Ambroise Paré conseguiu salvá-lo. O rei morreu após uma agonia de 10 dias de grande dor (morte cruel), sem poder despedir-se do grande amor da sua vida: Diana de Poitiers (amante do rei) que, depois do ferimento de seu bem-amado, fora proibida pela rainha, Catarina de Médicis de vê-lo novamente.

Começa então a ascensão de Catarina de Medicis que, além do marido rei, morto aos 40 anos, terá 3 filhos cada um deles rei em sucessão ao trono francês – Francisco II curto reinado de 17 meses, Carlos IX e Henrique III (os 3 filhos reis) além de Henrique IV (genro).

O casamento de sua filha Margarida de Valois realizou-se em 18 de agosto de 1572, no adro da Catedral de Notre Dame, irmã do rei Carlos IX e filha de Catarina de Médicis, apelidada la reine Margot. Mulher de grande beleza e de muitas aventuras românticas.

Deveria o casamento simbolizar a união nacional pela paz entre católicos e protestantes. Para tal o noivo teve que fazer sua primeira conversão (de várias que faria) ao catolicismo. 

A noiva, por sua vez, revoltada com o casamento forçado por razões políticas, ficara em silêncio na hora do ‘sim’. O rei seu irmão resolveu a situação empurrando a cabeça da noiva para baixo para constar que assentia.

O massacre da noite de São Bartolomeu

As núpcias se tornaram ocasião única de fazer vir a Paris 3 mil protestantes. O casamento, contudo, teve seu brilho ofuscado pelo violento Massacre da noite de São Bartolomeu, 6 dias após as núpcias.

Na madrugada de 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, dezenas de líderes huguenotes foram assassinados em Paris, numa série de ataques que são atribuídos à Catarina de Medicis  que arrancou a autorização para o massacre do rei seu filho. Era apenas o começo. A partir do dia 24 começou uma perseguição aos protestantes que só foi encerrada em outubro.

Massacre da noite de São Bartolomeu – pintura de François Dubois

Depois de sua conversão forçada ao catolicismo, Henrique de Navarra presenciou o suplício de seus irmãos protestantes e ficou durante quatro anos retido na corte como prisioneiro no castelo real.

Henrique escapou em fevereiro de 1576 aproveitando-se de uma caçada na floresta de St. Denis e, retornando a Navarra onde abjurou sua conversão ao catolicismo, voltou a ser protestante e assumir o comando do exército huguenote na guerra contra a França.

Uma manhã perto dos portões de Louvre’, pintura de Édouard Debat-Ponsan. À frente, vestida de preto Catarina de Medicis que, após a morte do marido, usou Luto até o fim da vida.

Em 1574 havia morrido seu cunhado e rei francês Carlos IX, que havia sucedido Francisco II seu irmão após um período de regência de Catarina, sua mãe.  Com a morte de Carlos IX assumiu o trono da França outro cunhado de Henrique de Navarra, Henrique III, na ocasião rei da Polônia.

Seu governo na Polônia foi curto, tendo deixado o reino para tornar-se rei da França em 1574, após a morte de seu irmão, que morreu sem deixar descendência masculina.

Catarina e seus filhos, Carlos IX, Henrique III, D’Alençon, o menor e Margot entre os dois maiores.

O rei Henrique III

Sua viagem da Polônia para a França foi muito prolongada e repleta de problemas, inclusive físicos – o que não era incomum naquelas longas viagens em carruagens inconfortáveis – tendo-lhe surgido um abcesso embaixo do braço, uma fístula no olho e um abcesso num pé que, apesar do tratamento considerado na época como revolucionário, não resultou em cura.

O tratamento revolucionário era “colocar o pé ferido na garganta de um toro recém executado”. Apesar das predições otimistas, o tratamento não teve resultados positivos.

Este Henrique tinha uma personalidade excêntrica, para dizer o mínimo. Era o filho querido de Catarina que o amava muito, mas também o temia. Era o mais inteligente dos filhos embora fosse também o mais indolente, extravagante e vaidoso. Carregava consigo dois sentimentos muito fortes e contraditórios: excessiva sensualidade e uma religiosidade exaltada, penitente e ansiosa por redenção. Obsessivo com sua elegância era fascinado por roupas, as mais ricas e coloridas, assim como tinha paixão por joias e adornos.

Acima de tudo protegia e premiava seus favoritos os quais chamava de mignons, que o acompanhavam por onde andasse. Cercado por esses jovens aristocratas, vestindo-se na fronteira do travestismo, não seria surpresa que seus inimigos o apelidassem de variadas formas sempre pelos seus traços de comportamento efeminado. Na realidade o estigma de homossexual o acompanhou por toda a vida.

Entretanto, tinha sido o chefe militar do reino, conduziu a França nas guerras religiosas e, como governante, beneficiou-se dos conselhos e da comprovada experiência e sabedoria política de sua mãe. 

Dedicou-se também a regulamentar e estilizar as regras de comportamento da sua corte, tendo mandado imprimir um livro onde detalhava precisamente as etiquetas de sua corte, base para os costumes e rituais da vida cortesã em Versailles, no reinado de Louis XIV e seus sucessores.

A França durante seu reinado estava envolvida em dois sérios problemas: a necessidade de um herdeiro masculino e a guerra religiosa que se desdobrava em diversos combates.  

Este primeiro problema parece que se tornara crônico. Seu pai Henrique II morreu jovem e deixou filhos ainda crianças, o que levou Catarina de Medicis a exercer a função de regente, tanto de Francisco II que morreu com 15 anos de idade, após apenas 17 meses de reinado, quanto de Carlos IX que tinha 10 anos de idade quando foi reconhecido como rei (1561).

Quando Henrique III tornou-se o novo rei, a questão do herdeiro masculino se recolocou.  Corriam muitos boatos que punham em séria dúvida a capacidade de o novo rei produzir filhos, além do sempre complexo problema político da escolha de uma esposa.

Já em 1570, antes de tornar-se rei, ainda como Duque de Anjou iniciaram os contatos com a corte da Inglaterra para o eventual casamento com a rainha Elizabeth I, que à época tinha 37 anos. Não prosperaram. O senso estético de Anjou excluiu a rainha inglesa, à qual se referia como “uma criatura velha com uma perna aleijada”.

Por fim Henrique III casou-se com Louise de Lorraine em 14 de fevereiro de 1575, de cujo casamento não resultou um herdeiro para o trono.

O segundo problema que desafiava o novo rei era a guerra religiosa que se intensificara depois do massacre da noite de São Bartolomeu.

 O principal conflito do período foi a Guerra dos 3 Henriques.

Henrique III, Henrique de Navarra, Henrique Duque de Guise, líder da Liga Católica que pretendia excluir, da próxima sucessão real da França, a possibilidade de um rei protestante, Henrique de Navarra.

O último filho de Catarina de Medicis o irmão mais jovem do rei, Francisco, mais conhecido como D’Alençon, morreu em 1584.

Como consequência da Lei Sálica – que proibia a sucessão real para as irmãs do rei e para todos os demais cuja reivindicação do trono se apoiava na linha feminina da descendência- o herdeiro presuntivo era Henrique de Navarra.

Henrique III uniu-se a Henrique de Navarra contra Henrique de Guise para evitar que a França caísse nas mãos da Liga Católica.

Desde o momento da morte de D’Alençon, último herdeiro da linha genealógica dos Valois (filhos de Henrique II e Catarina de Medicis), Henrique III tornou claro que o seu sucessor legal seria seu primo e cunhado Henrique de Bourbon, então rei da Navarra, do ramo Vendôme dos Bourbon, tornou-se Henrique IV e como herdeiro, levou o trono francês para sua linha dinástica.

O assassinato de Henrique III

Assassinado Henrique de Guise, líder da Liga Católica, por ordem de Henrique III a condição de Navarra como herdeiro do trono ficara consolidada. Embora restasse ainda um obstáculo difícil de transpor: a religião protestante.

Em 5 de janeiro de 1589 morre Catarina de Médicis, esposa de rei e mãe de três reis da França.

No dia 31 de julho um frei dominicano de nome Jacques Clement procurou falar com o rei dizendo-se portador de informações muito importantes para Sua Majestade. Na realidade tratava-se de uma pessoa perturbada que, segundo disse mais tarde, recebera de Deus o comando para matar o rei.

O rei acreditando que ele trazia notícias de Paris, revoltada com o herdeiro protestante, disse que o receberia no dia seguinte às 8:00. No dia seguinte levado ao rei, sem ter sido revistado pelos guardas, pediu para aproximar-se porque sua mensagem só podia ser revelada ao rei. Próximo ao monarca, aparentando falar-lhe ao ouvido, puxou uma faca e a empurrou até o cabo no abdômen do rei.

Henrique de Navarra torna-se Henrique IV rei da França

Nada tinha sido fácil na história de vida de Navarra. Nada seria fácil no seu futuro, mesmo assim tornou-se Henrique IV rei da França. Contudo, ele terá que conquistar seu trono pela vitória nas guerras. Formalmente rei da França, teve que enfrentar a reação da nobreza católica em armas, concentrada sobretudo em Paris que se recusava a aceita-lo como rei da França.

Antes da consolidação de sua dinastia Henrique de Navarra precisaria ser aceito pelos franceses. A reação hostil à sua pretensão provinha principalmente de sua condição de protestante.

Muitos insistiam com ele que renegasse o protestantismo e assumisse o catolicismo (mais uma vez), mas ele recusava. Até que em julho de 1593 estimulado pelo grande amor de sua vida, Gabrielle d’Estrées, decidiu-se por mais uma conversão.

Henrique então finalmente entendeu que chegara o momento para ele se reconverter ao catolicismo e pacificar sua relação com Paris e com a França. A solenidade aconteceu no adro da Igreja de Sait Denis em 23 de julho de 1593. Não lhe foi permitida a cerimônia dentro da Igreja enquanto não tivesse abjurado a fé protestante. Centenas de parisienses assistiram a cerimônia em que ele abjurou o protestantismo. No trajeto para a igreja, entre 10.000 e 20.000 pessoas gritavam ao vê-lo passar “Vive le roi”.

Alguns dias mais tarde em Montmartre, enquanto observava Paris do alto da colina, pronunciou a célebre frase, com a qual justificava sua nova conversão ao catolicismo:

“Paris vaut bien une messe”
(“Paris bem vale uma missa”).

Para conseguir o apoio que lhe permitisse tornar-se rei, Henrique IV convertera-se ao catolicismo e assinou o Édito de Nantes que concedia liberdades religiosas aos protestantes e que, na prática acabou com a guerra civil.

Foi um dos reis mais populares da França (durante seu reinado e depois), mostrando preocupação pelo bem-estar económico dos seus súditos, e também dando mostras de uma tolerância religiosa, atitude pouco comum no seu tempo.

Outra frase famosa de Henrique IV diz respeito ao bem-estar de seus súditos:

“Si Dieu me prête vie, je ferai qu’il n’y aura point de laboureur en mon royaume qui n’ait les moyens d’avoir le dimanche une poule dans son pot!”

(“Se Deus proteger minha vida eu farei com que não haja nenhum trabalhador em meu reino que não disponha de meios para ter a cada domingo uma galinha na sua panela”)

Esta autêntica preocupação com as difíceis condições de vida da população mais pobre não encontra equivalente atitude entre os reis daquela época.

Depois de sua morte Henrique IV continuará sendo lembrado afetuosamente pelos franceses. Sua forma direta de ser, sua coragem física, seus sucessos militares, sua história de vida contrastavam fortemente com o temperamento doentio, o comportamento decadente, a falta de vigor e masculinidade dos reis que o antecederam.

Ele costumava afirmar que “governava com o braço armado e com a bunda na sela”. Como um dos grandes reis da França até hoje é lembrado. Ganhou vários apelidos que ilustram esta percepção de grandeza: “Henrique, o Grande”; “O bom rei Henrique”; “O galante verde” (por suas aventuras amorosas).

O segundo casamento

Resolvida a questão de sua ascensão ao trono francês mediante sua conversão, já se falava sobre o herdeiro para se evitar mais uma sucessão disputada. Seu casamento com Margot não trouxe filhos. Henrique desejava uma anulação de seu casamento com Margot para casar-se com sua amada Gabriell d’Estrées, com a qual já tivera 3 filhos.

Gabrielle morreu inesperadamente em 10 de abril de 1599, mesmo ano em que seu prévio matrimônio fora anulado. A escolha da nova esposa recaiu sobre Maria de Medicis, parente distante de Catarina. O casamento foi realizado por procuração com o noivo representado pelo Gran Duque Fernando em 5 de outubro de 1600.

Com 28 anos Maria, sem graça e bem acima do peso, foi recepcionada por Henrique IV em Lyons. O rei, diz-se, insistiu em ter sexo com ela na mesma data em que Maria chegara a Lyons. Por certo desejava assegurar-se que nenhum impedimento de natureza física existisse para que ela pudesse ter filhos.

A dinastia Bourbon teve sua continuidade com o nascimento de um filho, que veio a ser rei com o nome de Louis XIII e que teve como seu conselheiro o Cardeal Richelieu.

O legado do rei Henrique IV

O rei tornou-se famoso e entrou para o panteón histórico dos grandes reis franceses por um conjunto de qualidades e virtudes que raramente sobrevivem às exigências e privilégios da realeza.

De bom coração, famoso por suas aventuras amorosas e por seu valor como guerreiro, dotado de um senso de majestade que não apagava seus traços pessoais, tornou-se um dos mais populares reis de toda a história da França, tendo também resolvido o grave problema religioso da França.

Estátua equestre de Henrique IV na Pont Neuf

Henrique IV restaurou Paris como uma grande cidade. Entre outras realizações construiu a Pont Neuf que ainda conecta a rive droite com a rive gauche; a Place des Vosges; construiu também a Grande Galeria do Louvre à margem do Sena; levou inúmeros artistas e artesãos para viver e trabalhar nos pisos inferiores do prédio, tradição que se manteve por 200 anos, até que Napoleão I a encerrou.

Maria de Medicis mandou fazer uma estátua marcial de Henrique, montado em seu cavalo, nos moldes de uma que conheceu na Itália. Como demorava a ser concluída tentou usar a montaria da estátua italiana à qual acrescentaria a escultura de Henrique para apressar a obra. Não conseguindo, teve que esperar até 1614, quatro anos após sua morte, para inaugurá-la na Pont Neuf.

Derrubada a estátua durante a Revolução Francesa, foi reconstruída em 1818 e até hoje encontra-se no mesmo local em que foi instalada originalmente: no local em que a ponte cruza a ile de la cité entre as duas margens do Sena.

O assassinato de Henrique IV

Foi assassinado em 14 de maio de 1610.

Era a terceira tentativa de assassiná-lo.

Foi assassinado por um homem com perturbações mentais, o católico fanático François Ravaillac, enquanto passeava numa carruagem aberta pela cidade que tinha sido bloqueado pelo tráfego congestionado, na rua Ferronnerie, em 14 de maio de 1610.

Maria de Medicis viúva, foi regente até 1617 quando Louis XIII completou 16 anos.

Henrique IV deu então início à dinastia Bourbon. Seguiu-o ao trono francês, seu filho Louis XIII, Louis XIV; Louis XV, Louis XVI (guilhotinado na revolução francesa), Louis XVIII e Carlos X (irmãos de Louis XVI).

O brasão real em memória de Henri IV marca o local da morte do rei.

Nota do Autor:

Esses dois filmes podem servir como referências históricas, para dar um background mais rico e visual sobre a temática deste texto. Recomendo então que enriqueçam o conhecimento sobre personagens importantes da história francesa deste período como Catarina de Medicis, Rei Carlos IX, o episódio da Noite de São Bartolomeu- guerra religiosa na França catolicismo x huguenotes protestantes , Henrique de Bourbon (rei Henrique IV).

A Rainha Margot
Henrique IV – o grande rei da França