Concluída a eleição entra-se no período pós-eleitoral, e a primeira manifestação que abre essa fase é a declaração de reconhecimento da vitória do adversário. Esta declaração é um ato obrigatório de civismo e de respeito à democracia. Como regra, o candidato vitorioso fica impossibilitado de se manifestar publicamente enquanto ela não for feita por seu adversário derrotado.

Protelar a declaração além do tempo razoável (isto é, após os resultados oficiais demonstrarem que quantitativamente não há mais possibilidade de alteração do resultado) é percebido pelo eleitor como um gesto de mau gosto, falta de elegância e ressentimento. Não vir a público para reconhecer a vitória do adversário e calar- se diante do resultado equivale a negar-lhe legitimidade, contestá-lo, ainda que isto não seja dito abertamente. Representa o limite da incivilidade política.

Nixon deixou transparecer seus ressentimentos

É óbvio que, se o candidato derrotado tem argumentos fortes para contestar o resultado, para denunciá-lo como fraudulento, deve fazê-lo imediatamente e apresentar suas razões e providências. Se não estiver preparado para contestá-lo deve, então, o mais breve possível, com a serenidade e elegância possível, reconhecê-lo e sair de cena.

Após esta declaração, feita no mesmo dia do anúncio oficial do resultado, pode ainda o candidato derrotado dar uma entrevista, na qual, com mais tempo, poderá falar sobre a campanha, planos futuros e o novo governo (ao qual deverá desejar boa sorte e sucesso).

Nixon fala após derrota

Uma entrevista de derrotado que se tornou antológica na história política moderna foi a de Nixon, após a derrota de 1962, na eleição para o governo da Califórnia. Nixon vinha de uma derrota por diferença mínima para Kennedy, em 1960, e tentava recuperar uma posição política forte no governo da Califórnia, quando foi derrotado pelo Governador Pat Brown. Mais uma vez perdera por pouco – fizera 47,4% dos votos.

Nixon sofrera duas derrotas no breve espaço de um ano e meio, e tudo indicava que estava politicamente morto. Ele sabia que tinha um problema sério de imagem. Seu apelido era “tricky Dick” (Dick o enganador), e a grande imprensa do leste principalmente tinha para com ele manifesta má vontade.

Nixon concedeu entrevista, após a derrota de 1962, na eleição para o governo da Califórnia

No seu pior momento, Nixon deixou transparecer todos os seus ressentimentos, nesta entrevista. Ele se sentia perseguido e prejudicado pela cobertura e comentários da imprensa. Agindo assim, Nixon afundou mais ainda sua carreira, ao atentar contra o princípio da cultura política americana (contrário ao brasileiro) de que não se deve exteriorizar sentimentos íntimos em público.

Nixon foi dado como “carta fora do baralho”, um jornal de New York escreveu o seu “obituário político”. Seis anos mais tarde, Nixon ressurgiria politicamente, na mais espetacular virada de uma carreira política, para eleger-se Presidente da República, a evidenciar que na política, “não há vitórias definitivas, nem derrotas definitivas”.

A entrevista

“Bom dia senhores. Agora que Klein fez sua declaração, e que todos os membros da imprensa estão felizes da vida por eu ter perdido (demonstração de ressentimento), gostaria de fazer uma declaração própria. Apreciei muito a cobertura da imprensa em minha campanha. Acho que cada um de vocês a relatou de acordo com seu ponto de vista. Vocês tinham que escrever de acordo com suas crenças políticas, e o fizeram (acusação insinuada de parcialidade).

Congratulo-me com o Governador Brown, como Klein já o fez, por sua vitória. Desejo-lhe tudo de bom (…) acredito que o Gov. Brown tenha um coração, ainda que ele acredite que eu não o tenha. Acredito que ele seja um bom americano, ainda que ele acredite que eu não o seja. (demonstração de ressentimento, ironia agressiva).

Quais são meus planos? Bem, meus planos são de ir para casa. E os meus planos, incidentalmente, são, no aspecto político, de tirar umas férias. Serão umas longas férias. Não digo isto com nenhuma tristeza.

Uma última coisa. As pessoas perguntam: e o passado? E a perda das eleições de 60 e 62? Lembro-me de alguém que me perguntou no último programa de televisão: Sr. Nixon, por acaso não é um desgaste para o senhor, depois de ter-se candidatado para presidente – e quase tê-lo conseguido – candidatar-se a governador? (…) Não ganhei. Não tenho ressentimento de ninguém (inverdade), nem de meu adversário, nem do povo da Califórnia. (…) Eles escolheram Brown. Escolheram sua liderança…

A entrevista de Nixon é uma obra acabada de como não se deve lidar com a derrota

Ainda mais uma coisa. No princípio fiz um comentário sobre a imprensa e reparei que alguns de vocês se irritaram um pouco. (…) Jamais nos meus 16 anos de política reclamei de um redator, de um editor, de um repórter. Acho que um repórter tem o direito de escrever do jeito que achar melhor. (…) Direi ao repórter que algumas vezes tenho bons pensamentos (ironia); veja, desejo que vocês deem ao meu adversário o mesmo que me deram (ironia).

E agora, como me despeço, tudo que posso afirmar é que por 16 anos, desde o caso Alger Hiss, vocês se divertiram muito, tiveram a oportunidade de me atacar, e eu tirei tanta vantagem disto quanto vocês.(…) Deixo-os agora, e vocês vão escrever sobre isto. Vocês vão interpretar minhas palavras como é seu direito. Mas quando eu os deixar quero que pensem no quanto estão perdendo. Vocês não terão mais Nixon para se divertir (to kick around), pois esta é a minha última entrevista para a imprensa e a única em que terei a oportunidade de testar a astúcia de vocês. Muito obrigado senhores e bom dia.”

Esta entrevista de Nixon é a obra acabada de como não se deve lidar com a derrota, sobretudo numa entrevista coletiva. É uma demonstração do quanto o fator emocional pode dominar o político, e das consequências negativas que produz este domínio. O homem político, não obstante as diferenças de países e culturas, tem características comuns. A reação humana de Nixon, ao extravasar todo o seu ressentimento, raiva, desprezo, revolta e indignação, transparece de maneira clara nesta entrevista.

Não foi por outra razão que, depois dela, ele foi dado como politicamente morto. São nestes momentos críticos que o político precisa ser capaz de superar-se. Ser capaz de amordaçar aqueles sentimentos mais íntimos para si mesmo e mostrar-se ao eleitor como alguém capaz de suportar e lidar com a derrota. Elegância, senso de medida e oportunidade, firmeza sem agressividade e sobriedade, são as qualidades que devem acompanhar o candidato nos seus pronunciamentos sobre a derrota.