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Preparar os primeiros 100 dias

Salvo situações de polarização política extremada, com uma oposição radical e intransigente, seus adversários deverão conceder-lhe o “período de graça” de 100 dias. Este período é concebido como necessário para você e sua administração se situarem no governo.

Não se instala uma nova administração no governo de uma hora para a outra. Cada ministério/secretaria precisa ser ocupado por novas pessoas que necessitam de um tempo para estabelecer suas equipes nas novas funções e conhecer os funcionários permanentes do órgão.

Política, e sobretudo estratégia política, envolve sempre o uso inteligente e astucioso do “timing”

Seus adversários normalmente concedem um período de descanso de 100 dias

Por outro lado, as funções de governo não podem ter solução de continuidade. É razoável então que se respeite um prazo, dentro do qual o novo governo se instala, mantém a máquina da administração funcionando, e toma algumas medidas iniciais do seu programa. Não é razoável que o novo governo já comece a ser contestado desde o primeiro dia e que tenha que manter a administração funcionando e instalar-se no poder sob fogo cerrado da oposição. Não se trata, pois, de um favor da oposição respeitar este período inicial. Ela nada mais faz do que reconhecer as expectativas da população, que não aceitaria como justa uma oposição raivosa.

Portanto, por estas razões, você deverá contar com um período de 100 dias, nos quais a oposição será muito moderada e até cooperativa. São estes 100 dias que você deve preparar antes de assumir. Não “queime” este “período de graça” para adquirir conhecimento sobre o governo, sua máquina, e as operações de rotina que qualquer governo possui. A regra estratégica básica é: Faça durante a transição tudo que puder ser feito antes. Antecipe-se aquele período e prepare-se antes de assumir, de forma a gastar o mínimo de tempo possível adaptando-se às novas funções.

A lógica é simples. Se você entra no governo já familiarizado com seus procedimentos e compromissos, pode usar o “período de graça” para iniciar seus projetos, preservando-os, desta forma, dos ataques e críticas da oposição. Política, e sobretudo estratégia política, envolve sempre o uso inteligente e astucioso do “timing”. Neste caso, se você fizer a “lição de casa” antes (durante a transição) ganha tempo para iniciar logo sua administração e o lançamento, apresentação e a implantação de seus melhores projetos.

Enquanto isto, a oposição permanece relativamente amarrada ao compromisso de respeitar o seu período de ocupação do governo. É portanto na transição que você deve tentar planejar em detalhe estes primeiros 100 dias. Serão, sem dúvida, os 100 dias mais trabalhosos de sua gestão. Você e seus auxiliares terão que trabalhar em dobro, para assumir o governo, manter a administração funcionando e ao mesmo tempo lançar e implantar novos programas, num momento em que a experiência é pouca, o conhecimento da máquina burocrática é mínimo, e há ainda uma pesada agenda protocolar e social a ser cumprida.

Só se consegue esta “proeza” tendo feito um excelente trabalho de preparação antecipatória para a administração, e um igualmente excelente trabalho de planejamento dos primeiros 3 meses na transição. Planejar detalhadamente significa acertar, primeiro, o que é efetivamente possível de fazer, segundo, estabelecer a ordem de lançamento, terceiro, preparar com antecipação discursos, projetos de lei, argumentos, peças publicitárias e tudo o mais que for necessário para produzir o fato e repercutí-lo, e finalmente, providenciar todo o planejamento logístico que envolve agendas, eventos, materiais, pessoal e equipamentos.

Você e seus auxiliares terão que trabalhar em dobro, para assumir o governo, manter a administração funcionando e ao mesmo tempo lançar e implantar novos programas

É numa tarefa como esta que sua “equipe estratégica” – seu homem de pesquisa, seus assessores pessoais e sua equipe de publicitários, organizados em torno de seu gabinete pessoal – vai mostrar do que é capaz. A eles deve ser dada a tarefa de preparar o planejamento desta operação. Seus ministros/secretários, enquanto isto, estarão ocupados em adquirir o domínio de suas respectivas áreas, com a rotina administrativa, e recebendo pessoas em audiências.

A eles portanto não seria nem sensato nem realista entregar esta responsabilidade. Não têm o tempo necessário e não possuem as habilidades requeridas. Além disso, se o trabalho for bem feito, conforme o recomendado, muitos deles ainda nem terão sido escolhidos ou convidados quando o planejamento estiver sendo realizado. Na hora certa eles entrarão na operação, até porque os projetos integram suas pastas.

Uma administração que aproveitou inteligentemente seus 100 primeiros dias tem uma “largada” muito forte, adquire um ritmo dinâmico e ocupa a iniciativa política, beneficiada pelas condições muito especiais que o “período de graça” lhe assegura. Como se verá em outras situações, é importante ter em mente que a passagem da eleição para o governo não significa a passagem da política para a administração, e sim a passagem de um tipo de política para outro.