Todos os Estados, todos os governos que tiveram e têm autoridade sobre os homens, foram e são ou repúblicas ou principados. Os principados são: ou hereditários, quando seu sangue senhorial é nobre há já longo tempo, ou novos.

Dos principados hereditários não cogitarei, porque as dificuldades de mantê-los são muito menores que nos novos, pois é bastante respeitar as tradições e os costumes dos antepassados e, contemporizar com os acontecimentos fortuitos e não previstos.

Também não vou cogitar dos principados eclesiásticos, porque são sustentados pelas ordens de há muito estabelecidas na religião. Estas ordens tornam-se tão fortes e de tal natureza que mantêm os seus príncipes sempre no poder, seja qual for o modo por que procedam e vivam. Só estes possuem Estados e não os defendem; súditos, e não os governam; os Estados, por serem indefesos, não lhes são tomados; os súditos, por não serem governados, não se preocupam, não pensam e nem podem separar-se deles. Somente estes principados, pois, são seguros e felizes. Mas, sendo eles dirigidos por razão superior, à qual a mente humana não atinge, deixarei de falar a seu respeito, mesmo porque, sendo engrandecidos e mantidos por Deus, seria obra de homem presunçoso e temerário dissertar a seu respeito.

Mas é nos principados novos que residem as dificuldades. Sobre esses versa este livro e as reflexões que nele faço.

Quem os conquista, querendo conservá-los deve adotar duas medidas: a primeira, fazer com que a linhagem do antigo príncipe seja extinta; a outra, aquela de não alterar nem as suas leis nem os impostos. Mas, quando se conquistam territórios numa província com língua, costumes e leis diferentes, é necessário haver muito boa sorte e habilidade para mantê-los. E um dos maiores e mais eficientes remédios é o conquistador ir habitá-los. Isso porque, estando no local, pode-se ver nascerem as desordens e, rapidamente, podem ser elas reprimidas; aí não estando, delas somente se tem notícia quando já alastradas e não mais passíveis de solução.

Ocorre aqui como no caso do tuberculoso, segundo os médicos: no princípio é fácil a cura e difícil o diagnóstico, mas com o decorrer do tempo, se a enfermidade não foi conhecida nem tratada, torna-se fácil o diagnóstico e difícil a cura.

Blog do MaquiavelTextos escritos pelo prof. Francisco Ferraz nos quais um fictício Maquiavel responde dúvidas, questões e sentimentos que sua obra “O Príncipe” causou em quem a leu, e na quase totalidade o criticam por sua concepção negativa da natureza humana e sua brutalidade e amoralismo na política.