O sistema partidário vigente nos EUA até hoje nasceu em 1933, por ação do presidente Franklin Delano Roosevelt. Foi da maneira como Roosevelt enfrentou a Grande Depressão, com as políticas de governo que ousadamente adotou e, o sucesso que obteve para resolver a crise, que surgiu o atual sistema partidário dos EUA.

Roosevelt cunhou um termo para expressar e unificar o espírito das mudanças que iria implantar, com novas políticas públicas. O New Deal (novo jogo, novo recomeço). A expressão ficou identificada com ele, e com certo tipo de política econômica, que implicava na intervenção maior do estado no estímulo e controle das atividades econômicas.

Os EUA, desde 1929 estavam afundados na mais grave e brutal crise econômica que até então se tinha notícia.

A política econômica que Roosevelt passou a praticar entrava em conflito aberto com a política econômica que, até então, o partido republicano praticara na Presidência da República.

Religiosamente presos aos princípios do liberalismo econômico clássico, os presidentes republicanos defendiam a mais absoluta remoção do estado da atividade econômica (seja como agente, seja como regulador) e sua submissão total às leis do mercado.

Diante de uma crise de proporções gigantescas como era a de 1929, nada tinham a fazer, a não ser esperar que o mercado, por seus mecanismos espontâneos, restabelecesse o equilíbrio da economia. Não por acaso, o presidente Hoover (antecessor de Roosevelt) costumava usar uma frase que se tornou emblemática dessa postura de esperar que o problema se auto resolvesse:

“A prosperidade está ali, dobrando a esquina”

É então nesse momento que se estabelece um agudo confronto entre:

  • Uma política de moderada intervenção do estado na economia x uma de absoluta confiança nas leis de mercado; (Roosevelt/Partido Democrático x Hoover e o partido republicano)
  • Uma política de decidida ação social do governo na proteção dos setores mais necessitados da população x uma que rejeita esse tipo de ação como ineficiente e onerosa por contrariar as leis do mercado. (Roosevelt/Partido democrático x Hoover/ Partido Republicano)
  • Desse confronto básico nasceu o atual sistema partidário americano.

O partido democrático

Mascote do Partido Democrático
Mascote do Partido Democrático

O partido democrático (Roosevelt, Truman, Kennedy, Johnson, Carter, Clinton, Obama) tem como sua prioridade programática a questão social.

Direitos humanos, apoio aos trabalhadores e seus sindicatos, programas públicos de saúde para os pobres, apoio aos imigrantes, direitos civis de minorias (negros, latinos, asiáticos, mulheres, gays), questões morais (aborto, casamento gay, pesquisa com célula tronco), e intervenção na economia para corrigir as distorções produzidas pelo mercado, além de uma atitude liberal em política externa, são os principais temas dos programas de governo do partido democrático, desde Roosevelt.

Fiel a esses objetivos, o partido não hesita em adotar ações, medidas e programas que interferem com a ortodoxia das leis do mercado.

Em conseqüência colidem também com algumas das principais regras políticas enraizados na cultura política americana:

  • Os problemas sociais devem ser resolvidos, pelos próprios indivíduos.
  • Quando escapa a essa esfera devem ser resolvidos pelo governo local (municipal).
  • Nos casos em que não podem ser resolvidos nessas esferas, devem ser enfrentados pelo governo dos estados.
  • Só em último caso, quando o problema não se resolve em nenhuma dessas esferas, o problema deverá ser enfrentado pelo Governo Federal.

Os compromissos do partido democrático de (1) dar prioridade às questões sociais sobre o mercado e de (2) usar o governo federal para agir sobre problemas que, em tese, pertenceriam a esferas inferiores de governo, surgiram com um homem a quem incumbiu enfrentar a maior crise econômica e social da história americana, e por ele assumida solenemente, como um desafio pessoal e político.

O homem foi Franklin Roosevelt, a crise foi a Grande Depressão de 1929, e o anúncio foi feito no seu discurso de posse.

Com Roosevelt nasce o moderno partido democrático, como a grande coligação formada pelos trabalhadores, imigrantes, minorias étnicas e religiosas (católicos), intelectuais, grupos de esquerda, as grandes cidades industrializadas e a população dos estados do sul dos Estados Unidos.

A grande mudança que se verifica nessa heterogênea composição social (a partir da década de 70 do século passado), é a perda da hegemonia democrática nos estados do Sul, decorrente da ação determinada do Governo Federal nos governos de Kennedy e Johnson, em defesa dos direitos civis dos negros.

Os estados do Sul, desde 1865, tinham ficado com os democratas, desde logo porque não podiam ficar com os republicanos, o partido de Lincoln, que os havia derrotado na Guerra Civil (1861-1865).

Com Roosevelt e com Truman, a questão da discriminação racial ainda não atingira a gravidade que vai atingir na segunda metade da década de 50 e, sobretudo na década de 60. Naquele período então a coligação subsistiu.

A partir da década de 60, o partido republicano começa a ganhar força no Sul, por causa do desgaste politico decorrente do apoio dos democratas à luta dos negros contra a segregação racial nos estados do sul.

Essa mudança pode ser observada no sucesso da dinastia Bush no governo de estados como Texas e Florida, assim como em três mandatos, na Presidência da República.

É, pois, basicamente naquelas duas clivagens (intervenção do estado na economia e políticas sociais de iniciativa do governo federal) que os dois partidos se distinguem. No interior de cada um dos dois, entretanto, existe uma outra divisão: entre liberais (centro e esquerda) e conservadores (direita).

Assim, em qualquer momento do tempo há, nos EUA, dois partidos principais – Democrático e Republicano e, dentro de cada um deles, duas tendências básicas: liberais e conservadores.

Hillary, Obama, Clinton, Carter, Johnson, Kennedy, Roosevelt são políticos liberais do partido democrático. Trump, Bush (filho), Bush (pai), Reagan, Nixon são políticos conservadores do partido republicano.

Há momentos em que os liberais do partido republicano se encontram mais próximos dos liberais do partido democrático do que dos seus conservadores (eleição de Johnson contra Goldwater, p.ex.). Em outros, os conservadores do partido democrático estão mais próximos dos conservadores do partido republicano (eleição de Reagan p. ex.) do que dos liberais do seu partido.

O partido republicano

Mascote do Partido Republicano
Mascote do Partido Republicano

O partido republicano (Lincoln, Hoover, Eisenhower, Nixon, Reagan, Bush pai e Bush filho e Trump) é mais antigo do que aquela coalizão de segmentos sociais constituída por Roosevelt na década de 30.

Os republicanos são usualmente caracterizados como WASP, uma abreviatura que quer dizer: White, Anglo-Saxon, Protestants, isto é, brancos de origem anglo-saxônica e protestantes.

Em outras palavras, a elite americana, os que traçam sua origem aos colonizadores ingleses, ou a sua origem inglesa nos séculos posteriores.

Duas teses doutrinárias centrais identificam o partido republicano:

  • Governo local
  • Economia de mercado

Por governo local entenda-se o princípio segundo o qual, quanto mais próximo dos cidadãos for o governo, mais legítimo ele será. Assim, o governo municipal é mais legítimo que o estadual e federal, e o estadual mais legítimo que o federal.

Por economia de mercado entenda-se um sistema econômico que é autorregulado pelas leis do mercado, dispensando e condenando a intervenção do estado na economia, seja para regular a sua dinâmica, seja para proteger e promover setores menos favorecidos da população.

Em conseqüência, os republicanos se opõem à intervenção do estado na economia, a programas sociais de responsabilidade do governo federal (p. ex. saúde, educação, imigrantes, minorias) e ao respaldo que o partido democrata e seus líderes dão a questões morais controvertidas como, aborto, pesquisa com célula tronco, casamento gay.

Distribuição do eleitorado americano

Esses dois partidos, de 1933 até hoje, dividem as preferências da imensa maioria dos eleitores americanos. Oscilando entre os dois, a cada eleição presidencial, encontram-se os eleitores independentes que, ora pendem para um ora para o outro dos dois principais partidos.

Embora legalmente não haja nenhum impedimento quanto ao número de partidos (e nos EEUU existem dezenas de partidos minúsculos que se apresentam a cada eleição), nunca um terceiro partido conseguiu implantar-se de forma a tornar-se competitivo e disputar com os dois principais a presidência da república.