No jogo da política, por mais pacífico e sensato que você seja sempre chega o momento do conflito, a ocasião em que você vai ter que “entrar numa briga”.

A conhecida frase de Oscar Wilde, “um homem nunca será julgado demasiado prudente por escolher seus inimigos“, é muito oportuna para o tema desta coluna.

Há algumas normas que orientam o político em como sair-se bem de um conflito. Elas devem ser estudadas e avaliadas em função da situação específica de conflito em que você se encontrar.

1. Sempre que possível, você deve escolher seu inimigo

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Escolher o inimigo é uma prova maiúscula de vigor e de determinação.

Esta decisão não deve ser entregue aos seus adversários. Em meio ao “tiroteio” verbal de uma sessão plenária, dentre os vários “alvos” possíveis, você deve escolher o que mais lhe convém.

A escolha do inimigo também é uma maneira de definir o seu papel. O inimigo que você escolhe:

  • Deve ser a principal ameaça à sua candidatura;
  • Pode ser derrotado por você;
  • Vencendo-o nos debates e confrontos você prova a consistência da sua mensagem e a sua força como candidato;
  • Mostrando que não o teme, que pode vencê-lo você pode atrair eleitores de outros candidatos para sua candidatura

Escolher o inimigo é uma prova maiúscula do vigor e da determinação. Tanto é assim que candidatos que estão atrás nas pesquisas procuram polarizar com quem está à frente, porque, se tiverem sucesso em atrai-lo para o confronto, conseguem um “upgrade” nas suas candidaturas.

2. Não é em qualquer “briga” que você deve entrar

Há conflitos em que você tem interesse em entrar, assim como há aqueles que você deve evitar a todo o custo. Esta é uma decisão que precisa ser iluminada pela estratégia da campanha. Há situações em que você é atacado com um nítido objetivo “provocador”. Em outras palavras, o objetivo é desviá-lo do seu foco de seu governo, fazê-lo perder tempo e dinheiro respondendo, colocá-lo na defensiva e criar a suspeita junto ao eleitorado.

Nestas situações, dependendo da gravidade da acusação e da importância que o eleitor atribui a ela, você (1) ignora o ataque; (2) manda que alguém do seu staff, ou políticos que o apoiam, responda de maneira cabal a acusação e a denuncie perante o eleitorado (esta é uma forma de rebaixar seu acusador); (3) você mesmo vem a público para desqualificá-la com elementos factuais e para denunciar o expediente usado por seu adversário, aos eleitores.

Atenção: Você somente deve entrar pessoalmente no conflito, se for julgado que não pode evitá-lo de outra forma. Não se apresse a sair a público respondendo cada declaração que o incomoda. É preciso julgar estrategicamente a situação antes de decidir como agir. Há ocasiões em que a acusação ou declaração não seria levada a sério pelo eleitor, ou poderia ser com eficiência respondida por um escalão mais abaixo, e que o candidato, ao responder pessoalmente, dá a ela o combustível de controvérsia que necessitava para prosperar. Esta é a forma mais acabada de fazer feliz o provocador e jogar a favor da estratégia dele.

3. Conheça seu adversário

lutador de boxe
O candidato somente deve entrar pessoalmente no conflito, se chegar a conclusão de que não pode evitá-lo de outra forma

Para sair-se bem de situações de conflito, é fundamental conhecer bem seus adversários. Conhecer bem significa: entender as razões do seu comportamento, os traços principais de sua personalidade, e os limites a que é capaz de ir num conflito. Não é preciso ser terapeuta para adquirir este conhecimento. A história de vida dele, episódios anteriores de conflito em que se envolveu, os auxiliares que o cercam e nos quais confia e informações pessoais, são suficientes para chegar a um conhecimento satisfatório de suas intenções, caráter e comportamentos previsíveis.

A primeira providência para quem vai entrar numa “briga política” é saber com quem vai brigar. Uma “briga política” não é uma “briga de rua”, inesperada e imprevisível. É um ato político, análoga a uma “luta de boxe”, com o público acompanhando cada lance, apostando em quem vai vencer e formando uma opinião sobre os lutadores quando ela terminar. O pior que pode acontecer numa “luta política” é subestimar o adversário e ser surpreendido, em meio à luta, por sua estratégia e seus golpes, sem possuir uma resposta à altura.

4. O objetivo é ganhar a luta e conquistar o público

Parece óbvio, mas não é. Muitos políticos entram na “briga” com o objetivo exclusivo de liquidar com seu adversário, ainda que, para isto, destruam a sua candidatura. Esta é a “briga do ódio”. Não é uma luta política, e sim um conflito pessoal. Portanto, cuide-se para não cair nesta tentação e cometer este erro.

Outros políticos entram na “briga” para restabelecer a justiça a seu respeito. Injustiçados pela acusação ou declarações, sua motivação principal é ressarcir-se moralmente. Esta é a “briga do orgulho ferido”. Ela somente se justifica quando o impacto eleitoral negativo se revela realmente importante e substancial. Nos casos em que a acusação feriu a imagem de honestidade, não há escolha, você tem que entrar na briga com tudo que tiver a seu favor e partir de imediato para o ataque, saindo da defensiva para uma posição ofensiva.

Mas há outros casos bem menos relevantes, ou que, embora relevantes para o candidato, não o são para o eleitor, que, muitas vezes, nem tomou conhecimento do assunto. Não esqueça nunca que, para estes casos, a melhor punição infligida ao seu adversário é a sua vitória! Concentre-se nela e com ela virá o ressarcimento moral que você buscava.

Há ainda outros candidatos com sensibilidade exacerbada que se julgam sempre em questão, e a respeito dos quais nada pode ser dito que os contradiga sem que se sintam no dever moral de contestar e se explicar. Estes são os mais fáceis de desequilibrar pela provocação oportunista.

Muitas vezes são pessoas que gozavam, na sua fase pré-política, de elevado status e grande respeitabilidade, que eram alvos de gestos de deferência e consideração, e que pretendem que o mundo cínico e competitivo da política se adapte a eles. Estas pessoas precisam, com urgência, se conscientizar da realidade da política e decidir se estão dispostos a encará-la, por que o mundo da política não vai mudar.

5. A “briga” tem que produzir um vencedor

O conflito político, como um tipo de movimento dentro de um jogo, exige uma resolução. O público que “torce” pelo seu favorito assim espera e depende da resolução para formar sua opinião.

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O conflito político, como um tipo de movimento dentro de um jogo, exige uma resolução, precisa, portanto, de um vencedor

Não se esqueça nunca, a “briga política” não se reduz aos contendores. Ela visa a influência sobre os formadores de opinião e sobre os eleitores. Quem venceu a briga está carregado de razões, foi injustiçado, é o melhor, fala a verdade, merece confiança, tem convicções fortes e consistentes, etc… etc…

O que importa na “luta política” é convencer o eleitor da sua superioridade, persuadi-lo de que você merece o seu voto, desqualificar quem ousou atacá-lo, e, como consequência final, eleger-se.

A “briga” sem vencedor confunde o eleitor, que tende a punir os dois, ou a decidir arbitrariamente quem, na sua opinião, saiu se melhor. Por estas razões, a recomendação apresentada no título desta coluna é uma orientação que não deve ser ignorada.