Sempre faça aquilo que você teme fazer. – (Ralph W. Emerson)

Se você deseja muito fazer algo, mas deixa de tentar porque teme fazer, você tem um problema a resolver. Esta situação pode tornar-se um verdadeiro tormento. Você quer muito, mas tem medo das consequências do fazer. Esse impasse é muito comum na vida e é muito perturbador. Leva-nos a questionar nossa própria identidade.

Afinal, quem somos nós? Somos tímidos, covardes, inseguros, medrosos, excessivamente cautelosos?

Só o dizer ou escrever a frase já nos coloca contra a parede! Nos faz pensar o que será que deixamos de fazer por temor. O fato de ela ter sido liberada de sua silenciosa prisão já é uma ameaça, um desafio, um questionamento.

Essa é uma regra que pode ser útil para o progresso pessoal. Ela nos leva a enfrentar situações com as quais não estamos habituados, não temos experiência, seja fazer um discurso, começar um negócio, apresentar-se para uma entrevista…

Entretanto, exatamente por serem situações com as quais não nos sentimos familiarizados são aquelas que oferecem maiores oportunidades para aprender e, aprender sobre pessoas e situações que nos atraem, ou que precisamos conhecer.

Mas há também que reconhecer que a regra da frase também se aplica a situações que podem ser perigosas, arriscadas, ameaçadoras. Por mais atraído pelo urso que alguém seja, aproximar-se dele sempre será um risco proibitivo.

Foi o conflito pessoal entre o sentimento de que devia concorrer a presidente dos EUA e, o risco muito provável de sofrer um atentado à morte, que se constituiu na história pessoal de Robert Kennedy em 1968 e na trajetória dolorosa que perseguiu até a consumação da tragédia que o abateu.

Robert Kennedy na campanha presidencial de 1968, aquela em que foi assassinado, era frequentemente desafiado por esta frase que se tornara tão importante para ele que a copiou na sua agenda e que lhe vinha à mente em diferentes situações de sua campanha.

No caso de Bob Kennedy o temor era real, objetivo e, imagino apavorante. Seu irmão John havia sido assassinado em 1963 em Dallas com balas de uma carabina; seu comitê de campanha era diariamente alertado das ligações intimidadoras que recebia prometendo mata-lo;  o outro personagem político que era constantemente ameaçado (e viria a ser assassinado da mesma forma em 4 de abril de 1968) era Martin Luther King; e a América vivia um período de intenso conflito interno, por causa da guerra do Vietnam e do movimento dos direitos civis dos negros.

Era impossível não temer; não levar na memória a cada dia a possibilidade do atentado.

A cada lembrança da ameaça, a cada susto, a cada momento de reflexão vinha-lhe à memória a frase que teimava em acompanhar o pensamento trágico, como a dizer-lhe “não te deixes influenciar pelo que temes”, “teu temor é a provocação que te empurra para a grandeza”, “como vais conseguir te reconciliar contigo mesmo, se desistes ou se deixas que o temor te impeça de fazer o que sabes que deves fazer”.

Para Bob Kennedy o pensamento que a frase resumia não se esgotava no temor do assassinato, no medo da morte. Para ele referia-se à coragem moral que, na sua forma de encarar a vida, era muito mais difícil de possuir e demonstrar que a coragem física. Num discurso que pronunciou para estudantes da África do Sul em 1966 ele dissera que ‘considerava a coragem moral um atributo muito mais raro do que a bravura em batalha ou possuir uma grande inteligência’.

Numa viagem a Washington durante a campanha, perguntado como ia a campanha ele disse ao jornalista com o qual conversava no avião:

“Vai bem. Mas tem um problema. Eu acho que há armas entre eu e a Casa Branca”

Na noite em que Martin Luther King foi assassinado ele deixou escapar o que estava pensando:

‘Podia ter sido eu’.

A campanha de Kennedy e, em especial suas aparições públicas eram atos de coragem moral. Antes do assassinato de Martin Luther King um atentado à sua vida era provável, depois parecia ser inevitável, escreveu Thurston Clarke.

Na campanha era voz corrente a probabilidade do atentado. Um jornalista que acompanhava a campanha disse ao colega que o avisou que antes de ir ao ato passaria no hotel.

Seu colega respondeu ‘talvez não estejas lá quando atirarem nele’; vários eleitores de seus concorrentes diziam ‘não joga fora teu voto, eles vão mata-lo’.

A campanha de Kennedy, para aqueles que dela participavam, era uma forma de suicídio em câmara lenta.

Kennedy encarou esta situação com um frio fatalismo. Quando o alertavam ele costumava dizer:

“O que acontece, acontece. Se alguém quiser me matar não será difícil”.

A referência a Bob Kennedy como ilustração histórica desta frase é um exemplo no extremo limite. Raras são as situações em que uma pessoa deseja muito fazer aquilo que ele mesmo percebe como um risco de vida. São raras, mas existem.

Na imensa maioria de situações o temor não é tão grave e nem tão provável. São situações mais comuns da vida afetiva, profissional, social e política que podem nos atrair/desafiar. Envolvem riscos menores, mas significam em contrapartida ganhos que nos atraem. É para essas situações que o conselho da frase se dirige.

O exemplo de Bob Kennedy – a clareza e lucidez que ele percebia no risco e sua coragem moral de enfrenta-lo – é próprio de pessoas que temem mais não agir como sua consciência exige, que a própria morte.

Não por acaso o lema que se atribuiu aos Kennedys, depois da morte do Presidente John Kennedy era

‘Courage is grace under pressure’ (Coragem é manter a graça quando sob pressão).