maestro A foto ao lado é absolutamente original e pouco conhecida.

Ela capta o momento mesmo do regente de uma sinfônica comandando um concerto. A cena foi fotografada em São Petersburg em 1918 provavelmente.

O regente encontrava-se no mais alto prédio do bairro e regia com 2 bandeiras. Mas regia quem? Regia uma orquestra composta de apitos e sirenas de fabricas, barulhos de máquinas e outros ruídos tipicamente industriais.

Era o início de um tipo de música que se chamava “música de máquinas”, “música proletária”, “orquestra de ruídos”, “sinfonia de apitos”. Surgira na onda do entusiasmo com a revolução de1917. O mesmo entusiasmo que levava os revolucionários a escolher seus pseudônimos com termos relacionados com a faina do operário fabril: Stalin – homem de aço; Molotov – martelo.

O mundo fabril, o ambiente de trabalho do proletariado foi diretamente transcrito para as diferentes formas artísticas. Bach, Mozart, Beethoven, Lizst eram encarados como burgueses e reacionários, ainda que vários artistas e músicos comunistas reconhecidos não concordassem com a transformação da música e da arte em instrumento político.

Mas sob o impacto da revolução e da rejeição de tudo que existia e que estava sendo demonizado, a atração para subordinar todas as formas de arte ao modelo da fábrica, das máquinas e do mundo do proletário foi, nos primeiros anos incontrolável.

Os bolsheviques logo trataram de colocar em prática as novas teorias de música revolucionária, como uma nova estrutura sinfônica (orquestras sem maestro), novas músicas e inclusive novos instrumentos musicais.

Uma mesma dificuldade que já havia atingido Mayerhold em suas experiências no teatro surgiu: não havia compositor para as músicas revolucionárias…

É no interior deste experimentalismo musical que surgiu a musica proletária. A nova música devia incorporar todos os ruídos da era mecânica, o ritmo da máquina, os apitos das máquinas, a batida dos motores, a zoeira da grande cidade e da fábrica. A música proletária imitava todos os sons da indústria e da tecnologia em ‘fugas’ peculiares nas quais os ruídos eram elevados a uma intensidade ensurdecedora. As ‘músicas de máquinas’ assumiram as formas de sinfonias, de operas, e de eventos festivos.

Essas orquestras de ruídos eram compostas de motores, turbinas, sirenes, apitos como os novos instrumentos de uma sinfônica; o regente (?) ‘conduzia’ a orquestra do alto de um prédio com diferentes e complicadas peças de sinalização.

É importante contrastar este estilo musical com aquele que Lenin, o líder da revolução russa, apreciava. Lenin não tinha muito tempo para ouvir música, mas quando estava já na fase final de sua doença, sem poder falar, apreciava e se emocionava quando seus amigos revolucionários executavam peças clássicas ao piano.

Antes da revolução há um comentário pessoal (muito raro em Lenin) que ele fez e que foi relatado por Máximo Gorki:

“Eu não conheço nada mais belo que a Appassionata, (opus 57 de Beethoven-Sonata para piano) eu poderia ouvi-la todos os dias. É uma música maravilhosa e sobrenatural. Todas as vezes que eu ouço essas notas eu penso com orgulho e talvez com a ingenuidade de uma criança as maravilhas que o ser humano pode realizar. Mas eu não posso ouvir música muito frequentemente, ela afeta meus nervos. Me dá vontade de dizer estupidezes amáveis e afagar as cabeças das pessoas que conseguem criar tais belezas num inferno imundo. Mas nesses dias não é o momento de afagar cabeças; nos dias atuais as mãos descem sobre as cabeças para abri-las ao meio, abri-las sem compaixão, ainda que a oposição a toda a violência é o nosso ideal mais alto. É uma tarefa infernalmente imunda.”