Nada apavora mais um político do que se ver subitamente às voltas com um escândalo. A natureza do escândalo não importa. O que importa é ele constituir-se num fato, público e comprovável, que colide frontalmente com os valores, sentimentos e opiniões dos cidadãos.

Nestas situações, a censura pública é inevitável. Pior ainda, dependendo da gravidade do fato, pode variar desde um desgaste recuperável (melhor hipótese) até o limite extremo da execração pública e da destruição da carreira política.

A primeira lição a se tirar desta situação é que não há como sair ganhando, ou mesmo incólume, de um escândalo (fato público e comprovável) que recebe ampla cobertura pela mídia. O objetivo, portanto, é sobreviver ao escândalo nas melhores condições possíveis, dentro das circunstâncias.

Nada assusta mais um político do que se ver às voltas com um escândalo.

Tentar “ganhar” e “sair por cima” só é possível se o fato que for imputado for manifestamente inverídico. Ou seja, somente se a sua inverdade puder ser pronta, cabal e documentadamente comprovada.

Se, o fato for verídico, comprovável, e tornado público, tentar escapar acusando adversários e inimigos de perseguição política não vai funcionar. O escândalo está instalado, torna-se matéria de pauta dos jornalistas, os adversários vão “repercutir” as acusações, e os eleitores, tomados de curiosidade, vão seguir os desdobramentos.

Um escândalo, ou surge num veículo de comunicação, ou é logo assumido por um ou mais veículos. O certo é que os jornalistas vão investigar a questão a fundo, e produzir matérias sobre ela.

Atenção: Nunca pense que a matéria que divulgou o escândalo contém tudo que o jornalista reuniu sobre ela.

É um erro comum o político responder à matéria, contestando-a e negando sua veracidade, de forma imediata à sua divulgação, para ver, no dia seguinte, suas declarações desmentidas por novos fatos, novas informações e documentos.

Quem assim procede, “entra em parafuso“. Fica na obrigação de a cada dia explicar, corrigir e completar, aquilo que disse no dia anterior, reduzindo sempre mais a sua credibilidade e aumentando a convicção de que as acusações são verídicas.

Quando o escândalo vem à público, o mais provável é que os jornalistas que escrevem sobre ele possuam “munições extras”, guardadas para uso nos próximos dias. Tanto o jornalista como o seu editor, dividem a matéria em partes separadas, para dotá-la de continuidade e para confirmar a ideia de que o escândalo está se espalhando e ganhando consistência.

Assim, cada escândalo possui, no mínimo, um “patrocinador” (veículo) na mídia, interessado em levá-lo adiante, até onde os fatos e documentos permitirem. Como o “patrocinador”, depois de ter divulgado a matéria em suas páginas, ficou comprometido com a sua continuidade, tentar enfrentar o escândalo, nas mesmas páginas que o originaram, é uma decisão totalmente equivocada, e fadada ao insucesso.

Para o político não é interessante criar uma “queda de braço” com os veículos de comunicação.

O “patrocinador” vai defender sua matéria, e, ainda que abra espaços para defesa, vai privilegiar o material que possui, e, que por definição, é negativo para o político acusado. A tentativa de lutar dentro do próprio veículo que divulgou a matéria significa uma “queda de braço”.

Se o político viesse a vencer, o veículo teria que reconhecer seu erro publicamente, nas mesmas páginas. Ora, para um veículo de comunicação, reconhecer um erro de informação em matéria desta relevância, é o que de pior pode acontecer-lhe, é o fantasma que ronda qualquer redação. Quando isto acontece, “cabeças rolam”.

Divisões internas vêm à tona, a credibilidade do veículo – seu capital mais importante – fica profundamente afetada, mas o político vítima do escândalo não sai ganhando. Muito ao contrário.

A hostilidade contra ele aumenta (afinal, ele é o causador do problema) e a necessidade de comprovar aqueles fatos divulgados e encontrar outros, leva a redação a um esforço investigativo redobrado.

O reconhecimento do erro, por exigência legal, vai aparecer numa página interna, sem o destaque que as acusações tiveram e, provavelmente, acompanhado ao lado de nova matéria sobre o escândalo, esta sim, com visibilidade.

Se não se pode sair vitorioso de um escândalo, a meta deve ser a de sobreviver a ele. Para tal é forçoso dedicar-se ao trabalho de “controle dos danos” (damage control), para limitar ao mínimo possível os prejuízos.

Para sobreviver a um escândalo político, a atitude mais importante é não mentir.

Neste sentido, nada é mais importante do que não mentir. Quando se analisam os escândalos que ocorrem na política, vemos que, na grande maioria dos casos, não é o fato que provocou o escândalo que destrói a carreira do político, e sim a mentira usada por ele para tentar escapar ao escândalo.

Frente à divulgação do escândalo, a primeira reação do político é, compreensivelmente, muito emocional. Ele deseja ter ao alcance da mão, o mais rápido possível, alguma fórmula que sepulte aquele assunto inconveniente.

Ele anseia pelo “retorno à normalidade”, pelo retorno aquele estado anterior à divulgação do escândalo. Para isso, se dispõe a adotar qualquer medida, que lhe pareça ter o poder de realizar este “milagre”.

Ocorre que esta medida simplesmente não existe. Se o fato imputado for público e comprovável, algum veículo de comunicação, ou vários, já o pautaram para a produção de matérias, os adversários já os utilizam na sua ação política, e a opinião pública, cujas “antenas”, já pré-sensibilizadas para escândalos pela cobertura usual dos noticiosos, já está falando sobre o assunto.

É neste contexto psico-social, com o assunto sendo divulgado amplamente, e, com o político acuado, inseguro, sentindo sua imagem e reputação sendo destruídas, que o recurso à mentira se torna atraente. Pelo menos para ganhar algum tempo.

É como recorrer a um veneno para aliviar a dor. Pode até aliviá-la por algum tempo, mas os efeitos são desastrosos.

Os políticos tendem a ter uma baixa resistência, para absorver uma situação politicamente embaraçosa, e resistem muito à ideia de reconhecer o erro e contar a verdade. É então que se insinua a mentira como uma tentação para se livrar do problema.

Ao assim agir, transformam um escândalo sério e perigoso, mas ao qual pode-se sobreviver, numa situação política sem saída, letal para a sua carreira. Este comportamento não é peculiar e privativo de políticos inexperientes.

Ao contrário, os casos mais emblemáticos ocorreram com políticos experientes e poderosos, como Clinton e Nixon, nos EUA. Diante de um escândalo, então, a única coisa que não se pode fazer é mentir.

Políticos experientes e poderosos, como Richard Nixon, foram alvos de escândalos.

É importante recordar que os eleitores, passado o momento inicial de surpresa e decepção, relutam muito em expelir da vida pública um político, apenas com base no escândalo que o atingiu. Este é o caso principalmente com políticos que gozam de uma boa imagem, como eficientes, dedicados, e realizadores.

Há muitos argumentos que ajudam a perdoar o erro, mas que aparecem num segundo momento, após o impacto do escândalo. É claro que este princípio não se aplica a todos os tipos de escândalos.

Atos de corrupção, devidamente comprovados, são fatais. O eleitor não os perdoa. Mas outros tipos de escândalo, de natureza moral ou mais propriamente política, provocam os seus prejuízos, mas raramente são fatais.

É preciso, entretanto, ajudar o eleitor a desenvolver o sentimento de perdão. Nada melhor que começar por reconhecer o erro, demonstrar arrependimento, apresentar argumentos que funcionem como atenuantes, mostrar que apreendeu uma dura mas necessária lição, e comprometer-se a não mais cometê-lo.

Nada pior que mentir. A mentira de hoje é desmanchada amanhã, o que exige uma nova mentira para salvar a primeira, que por igual será desmentida depois de amanhã.

Assim, seguindo esta espiral de mentiras – explicadas e reexplicadas a cada dia – a crise, que era manejável com algum prejuízo, transforma-se numa crise sem solução porque, mais que o fato gerador do escândalo, a falta de credibilidade, o atestado de mentiroso, atinge o caráter do político e inviabiliza o sentimento de perdão.

Frente a um escândalo, pois, é preciso estar muito sensível à reação da opinião pública. Se possível, deve-se fazer pesquisa de opinião para apoiar-se em bases mais sólidas. Nem sempre aquilo que é mais importante para os adversários, ou para o próprio político visado, é o mais importante para a opinião pública.

Não se deve esquecer nunca que a afirmação de um caráter forte, comprovado pela capacidade de assumir a responsabilidade pelos seus erros e a humildade de publicamente reconhecê-los, costuma ser mais importante para o eleitor do que o próprio erro cometido (desde que não seja um erro que agrida frontalmente os valores das pessoas).

Se o político estiver no poder, uma linha auxiliar que pode explorar é: falar a verdade, reconhecer seus erros, e declarar que sobre o assunto nada mais tem a dizer. Que tem responsabilidades públicas a seu cargo, mais importantes do que ficar discutindo aquele assunto, e dedicar-se ao trabalho intensamente, retomando a iniciativa, pondo sua administração a trabalhar, produzindo novos fatos, desviando, assim, a opinião pública para outras questões.

Atenção: Essa linha de ação só vai funcionar se o acusado tiver sido capaz de explicar satisfatoriamente as causas do escândalo, e lograr obter apoio de setores importantes da comunidade.