Franklin Roosevelt reeleito pela primeira vez em 1936 teve que enfrentar, desde o início do seu segundo mandato, um desafio institucional de enormes proporções: a oposição da maioria dos membros da Suprema Corte aos seus projetos de combate às consequências sociais e econômicas da Grande Depressão de 1929.

Animado por sua gigantesca vitória eleitoral em 1936, Roosevelt decidiu-se a enfrentar, sem perda de tempo, a Corte que ameaçava o plano de recuperação que criara: o New Deal.

Comprometido a enfrentar a grande depressão de 1929, tendo-se dedicado intensamente durante seu primeiro mandato, por meio do New Deal (1932 a 1936) a atacar os mais graves problemas sociais e econômicos provocados pela crise econômica, teve que amargar, ao longo de 1935 e 1936, sucessivas decisões contrárias da Suprema Corte, abalando os pilares centrais do New Deal e declarando ilegais a maioria dos programas de emergência que criara.

A Suprema Corte era e é a instituição mais respeitada do sistema político americano. Ninguém se atreve a enfrentá-la politicamente e seus justices (juízes) adquirem, ao serem empossados, uma aura de sabedoria e independência dos mundanos interesses, que lhes confere uma legitimidade superior aos chefes dos demais poderes.

Comportam-se de acordo com o seu elevado status. Adotam uma discrição quase obsessiva, evitam a notoriedade, não cultivam uma imagem pública e raramente aparecem em eventos sociais. Inadmissível para eles o que se tornou natural no Brasil: a transmissão ao vivo das sessões do plenário do STF.

Roosevelt, contudo, herdara uma Suprema Corte nomeada por presidentes Repúblicanos, embora dela fizesse parte o Justice Brandeis, ícone do liberalismo americano da época. Depois de muito pensar, Roosevelt resolveu enfrentá-la e anunciou, em fevereiro de 1937, seu projeto de reforma da Suprema Corte.

Seu argumento para a reforma foi a questão da idade dos juizes. No projeto propôs que os justices (juízes) quando atingissem 70 anos fossem aposentados com seus salários e vantagens integrais.

Se o juiz recusasse a aposentadoria, o projeto previa que o presidente da república poderia nomear outro juiz, eufemisticamente chamado de assistente, com pleno direito de voto.

Como a maioria dos juízes estava prestes a completar os 70 anos, e resistia ferozmente ao projeto, Roosevelt poderia no curto prazo, nomear mais 6, elevando a composição da Corte de 9 juízes para 15.

A oposição ao projeto (Republicanos e parte dos Democratas) acusou Roosevelt de tentar empacotar a Suprema Corte isto é, já que não conseguia que os justices se aposentassem voluntariamente, então aumentaria o número de integrantes e construiria uma nova maioria que seria favorável a ele.

Tratava-se de uma clara intervenção de um poder sobre outro, aproveitando-se o presidente da situação circunstancial de sua vitória e da imensa popularidade que gozava. Implicava numa invasão do espaço de independência do Poder Judiciário.

Não houve outra saída para a Suprema Corte senão defender-se daquela invasão de sua autonomia. Vários juízes passaram a cogitar de uma renúncia em conjunto; o presidente da Corte justice Charles Evans Hughes, escreveu uma carta aberta ao senado, contestando ponto a ponto o projeto. O inusitado de sua ação (manifestação pública) exerceu um efeito devastador sobre os políticos e a opinião pública.

Além disso, a corte passou a cautelosamente aprovar algumas partes do New Deal, incluindo a que tratava do salário mínimo e da Lei de Relações Trabalhistas, numa demonstração de que seria mais tolerante do que havia sido até então. Por fim, o juiz Willis Devanter, um conservador, solicitou sua aposentadoria, dando a oportunidade para Roosevelt fazer sua primeira indicação de um juiz da Suprema Corte.

O custo político da reforma de Roosevelt tornara-se proibitivo. Sua proposta pouco tempo depois foi abandonada. A Suprema Corte abandonou o seu radicalismo anti-New Deal.