Essa é uma regra que não apenas parece cínica, como é.

Sobre ela não se comenta na vida política; é como se não existisse, se não ocorresse. No mundo da retórica da política ela foi expurgada há séculos, mas no mundo da política real ela existe, é usada e funciona. Mesmo quem escreve sobre a política (como eu) precisa transpor um limiar de pudor para dela falar!

É, pois, importante alertar que não se trata de um conselho sobre como agir, ou sobre uma recomendação. Trata-se de reconhecer que faz parte da política real e é preciso, portanto, saber que no mundo real da política ela poderá aparecer como uma solução ou como uma ameaça.

É, sem dúvida, um estímulo ao oportunismo, à dissimulação da responsabilidade, ao uso de outra pessoa em benefício próprio.

Entretanto, no mundo da política prática, lembrando Maquiavel sobre a estranha relação entre vicios privados e benefícios públicos, ela não só é extensivamente praticada, como encontra razões que a justifiquem.

O mundo do poder, mesmo numa democracia, tem a dinâmica de uma selva. Conquistar e manter o poder não é uma qualidade que se adquire com “bons modos”. Adquire-se na luta, derrotando e desqualificando adversários, apropriando-se de bases eleitorais que ficam disponíveis, usando a persuasão, mas também a sedução, criando e mantendo uma imagem que estimula a adesão, envolvendo-se em “conchavos”, produzindo “lances e jogadas” oportunistas, etc

Neste mundo, o líder ocupa uma posição especial, tanto no que respeita às vantagens como aos riscos e desvantagens.

O líder político, por sua ação, protege seus auxiliares e os que o apoiam, outorga-lhes uma porção do seu poder, pela proximidade, acesso e influência, gera benefícios privados, como empregos, ajuda, acesso aos serviços públicos, contratos etc

Em troca destes benefícios ele exige trabalho e lealdade.

A desgraça de um auxiliar, de um apoiador, embora possa ser uma tragédia pessoal para quem a sofre, não abala aquela pirâmide de poder, na qual o líder ocupa a posição de ápice.

Por outro lado, a desgraça do líder, além de uma tragédia pessoal é também uma tragédia coletiva. Ela abala e pode destruir toda a pirâmide, levando consigo todos os seus auxiliares.

O princípio por detrás dessa realidade é o da substitutibilidade.

Assim como nos negócios, no esporte, na guerra, e em outros empreendimentos coletivos, é praticamente impossível substituir de forma imediata alguém que ocupa uma posição de comando.

Inversamente, é muito mais fácil substituir alguém que está numa posição subordinada.

O líder, o dirigente da empresa, o jogador de exceção, o general, para referir a apenas alguns exemplos, são pessoas que ocupam posições de difícil substituição imediata.

Chegaram às posições onde se encontram em razão de um longo aprendizado, de muitas experiências em escalões inferiores, adquirindo um conhecimento teórico e prático sobre a função que, em caso de ausência, gera uma lacuna irreparável, no curto prazo.

Ainda que sua atividade funcional possa encontrar formas que permitam “cobrir” sua ausência ou incapacidade, o papel simbólico que ocupa resultante de qualidades como confiança, relações, força política, visão não são imediatamente substituíveis.

Por estas razões, os que integram aquela pirâmide de poder devem ao líder, além da lealdade e trabalho, a disposição de assumir sacrifícios por ele.

Daí a expressão sobre “tire a cobra do buraco com a mão de outra pessoa, mas fique com o crédito.”

Ficar com o crédito do trabalho de outros é, na política, como em organizações complexas e modernas, um procedimento que se tornou normal.

Os assessores dos políticos pesquisam, estudam e redigem projetos, que serão anunciados ou assinados por políticos que não teriam nem tempo nem, na maioria das vezes, qualificações para produzí-los; os discursos são escritos por auxiliares dotados de boa redação e pronunciados pelo chefe que deles se apropria; quantos erros políticos cometidos pelo chefe, não são assumidos por suas secretárias, por assessores, ou até mesmo por outros políticos a ele subordinados, para que sua imagem seja preservada.

Essa situação pode chegar ao extremo de sacrificar algum auxiliar para proteger o líder, quando este assume responsabilidade por ato que não praticou, como um expediente para isentar seu líder e chefe.

Como regra geral, o político deve sempre procurar aparecer para a população como o portador de boas notícias. As más, que sejam comunicadas por seus auxiliares – ministros, secretários.

É claro que há limites para o uso deste expediente. O líder deve ser capaz de evidenciar suas condições superiores, demonstrando em situações “não protegidas” sua capacidade, coragem, valor, lucidez, inteligência. O governado acaba por desconfiar e depois desacreditar num líder que age sempre protegido, que nunca prova diretamente suas alegadas virtudes. Além disso, diante de ataques pessoais, não há como o líder não os enfrentar pessoalmente, sem perder o respeito e admiração dos governados.

Entretanto, na maioria das situações de governo ele pode se aproveitar desta lição que o chanceler Bismarck formulou de maneira conclusiva:

“Os tolos dizem que aprenderam por sua própria experiência. Eu prefiro dizer que me beneficiei da experiência dos outros”.

A regra do jogo, entretanto, não se completa sem que o comportamento do auxiliar a confirme. Por mais brilhante que seja a idéia ou projeto, o auxiliar jamais deve falar a outros de sua autoria.

Cabe ao chefe, quando e se quiser, referir o trabalho do auxiliar e elogiá-lo, com ele partilhando as eventuais glórias.

Jamais poderá um auxiliar tentar recuperar a autoria, contando a verdade a outros. Por certo chegará aos ouvidos do seu chefe e de outros políticos, deixando o líder numa posição constrangedora e desmoralizante.

Muitas vezes é duro aceitar esta condição. Mas é assim que o jogo é jogado.