Widget Image
SIGA-NOS

Transição: como organizar o gabinete

É fato: você não ganhou a eleição sozinho. Há o partido, os políticos importantes que o apoiaram, há a expectativa da opinião pública, as pressões da mídia, as necessidades de conquistar maioria no legislativo, há as expectativas dos que contribuíram financeiramente com a campanha, e dos grupos, associações, sindicatos que publicamente assumiram a sua candidatura, entre outras pressões.

Pela listagem das influências, pode-se ter a impressão, de que o governante fica, afinal, com um espaço de liberdade de escolha muito reduzido. Não necessariamente. Na medida em que ele aceita fazer estas concessões e acomodar no seu governo representantes de tantos atores políticos, ele por igual conquista plena autoridade para fechar certas áreas como suas, nas quais ninguém tem o poder de influir.

Além disso, mesmo naquelas em que aceita indicações, ele não precisa submeter-se à indicação de um único nome. Pode pedir a indicação de vários, dentre os quais fará sua escolha. E, em se tratando de setores com os quais possui relações, por certo que conhecerá indivíduos que ao mesmo tempo sejam representantes destes setores e pessoas de sua confiança.

De qualquer forma, concessões terão que ser feitas, e muitas vezes será forçado a incluir em sua equipe pessoas que preferiria não ter a seu lado. Dependerá da natureza da vitória (muito ou pouco expressiva); do grau em que dependeu daqueles apoios para vencer; e de seu estilo, habilidade e personalidade política, a magnitude do espaço de liberdade que terá na conformação final de seu governo.

Um governo tem muitos cargos a preencher. Não é possível contemplar todos os apoiadores com funções de primeiro escalão. Há muitos cargos, em empresas públicas, em autarquias, ou em cargos de segundo e terceiro escalão para atender a esta necessidade.

Tentar conciliar todos os apoios recebidos com os cargos existentes em um governo é como montar um quebra-cabeças

A montagem deste quebra cabeças não é nada fácil. Não se trata apenas de agradar quem ajudou na vitória. Trata-se de montar um governo que governe, que tenha capacidade resolutiva face aos problemas. Portanto, a regra da escolha do homem certo para o lugar certo deve ser ainda mais rigorosa nestes casos, do que nos de escolha livre e pessoal do governante.

Qualificações para o cargo são indispensáveis, mas também o são a lealdade e o cuidado para evitar a coincidência entre o cargo e os interesses privados do grupo que terá um nome seu nomeado. O grupo poderá ter o “direito” de integrar a administração, mas não o de colocar numa posição chave para seus interesses privados um dos seus. Esta regra admite exceções. A escolha do presidente do Banco Central, no caso de Armínio Fraga ou de Henrique Meirelles, são exemplos de como uma exceção a esta regra pode funcionar bem.

Mas, não esqueça, exceções são exceções porque são raras. Há uma área, entretanto, em que ninguém contesta o direito legítimo e exclusivo do candidato, na escolha de auxiliares: o seu gabinete pessoal.

Este espaço é estratégico. Pode ser maior ou menor; pode ser um mero gabinete – social, cerimonial e administrativo – ou pode ser um segundo ministério (secretariado). Como regra, se você puder constituir uma equipe de governo (incluídos os nomes cuja indicação você acolheu) muito homogênea (pessoas de sua confiança), seu gabinete pode ser mais operacional que estratégico.

Se você constituir uma equipe de governo homogênea (pessoas de sua confiança), seu gabinete pode ser mais operacional que estratégico

Se, entretanto, você teve que fazer muitas concessões, e conta com uma equipe de governo heterogênea, na qual você se vê obrigado a governar com “feudos políticos” , mais leais a quem indicou do que a quem os nomeou, e, se esta situação alcança inclusive posições estratégicas, então sua grande arma para governar de fato será o seu gabinete.

Neste caso o gabinete, além de suas tarefas operacionais, também deverá se ocupar de tarefas estratégicas. Esta situação de gabinete expandido é às vezes a única solução ao alcance do governante para efetivamente exercer o poder. Neste gabinete você acomodará seus assessores de estratégia, de discurso, seu especialista em pesquisa, seu assessor de imprensa, seu homem de mídia, seu coordenador de campanha, e com eles você formará a equipe que define as linhas políticas do governo, a serem executadas pela administração.

Há situações em que o governante chega a ponto de formar, no seu gabinete, uma espécie de segundo ministério (secretariado), atribuindo a cada um (com seus auxiliares) a responsabilidade para supervisionar uma área de governo, que está entregue a um ministro ou secretário.

Kennedy governou assim. Ele sabia que, se fosse depender do que viria do Departamento de Estado, pronto para ele assinar, teria que se submeter a uma política e a um tipo de comunicação, com os quais não concordava. Assim, ele usava seus assessores para esta área, (pessoas de sua mais estrita confiança e qualificação, embora sem os atributos políticos para serem nomeados titulares) como um filtro, para avaliar o que vinha do respectivo ministério, e enquadra-lo nos termos que lhe pareciam aceitáveis.

Feito isto, ele reunia-se com o titular, para mostrar as razões das mudanças que havia introduzido, para evitar que ele se sentisse desautorizado. Dava muito mais trabalho, mas garantia que aquilo que saía do governo, assinado por ele, ou anunciado por ele, fosse fiel ao seu pensamento estratégico, e à sua linguagem e estilo de comunicação. O seu gabinete, portanto deve ter a sua “cara”. Deve pensar como você. Deve estar atento às mesmas coisas, e deve ter as mesmas prioridades.

O segredo deste sistema não está em mantê-lo escondido, já que a existência destes assessores supervisionando áreas, logo fica conhecida. Nem tampouco, no fato de que os titulares os aceitem e não se incomodem, com a existência desta duplicidade. Nunca vão aceitar de bom grado.

O preço da intimidade com o poder é, muitas vezes, o anonimato

O segredo está em nunca deixar mal os titulares perante a opinião pública. Por isto, não bastava a Kennedy alterar a medida ou o pronunciamento. Ele tinha que conseguir que o titular também a aceitasse e a assumisse como sua. O outro lado do segredo está nos assessores. Eles nunca podem ocupar o primeiro plano. Sempre ficarão na obscuridade.

O preço desta intimidade com o poder é o anonimato. Não há outra saída. Caso sua verdadeira função viesse a ser publicamente conhecida e reconhecida, o titular seria desmoralizado politicamente, e não poderia continuar no governo.

Em conclusão, o gabinete do governante é uma estrutura de grande importância. Pode ser muito mais do que a soma de secretárias, chefes de gabinete, chefes de cerimonial, assessores, e amigos ou parentes do governante. Pode ser, uma verdadeira estrutura estratégica de governo, com poder muito maior do que parece possuir.