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Transição: Preparar-se para governar

O governante precisa de ajuda. Ele é o vitorioso, não há dúvida, o poder se desloca para ele, há uma boa vontade generalizada para com ele, a mídia torna-o uma celebridade, as pessoas querem vê-lo, os aliados querem conversar, os adversários o respeitam. Tudo parece configurar o melhor mundo possível, aquele pelo qual tanto lutou na eleição.

Passada a euforia da vitória, as festas e comemorações, um sentimento de isolamento, solidão, e insegurança cai, pesadamente, sobre o eleito. Como em outras ocasiões na vida, a ausência de obstáculos tem o poder de deixar o indivíduo desnorteado.

A vontade ganha um espaço de liberdade com o qual o indivíduo não está acostumado. Antes, a mesma liberdade precisava negociar com obstáculos, dificuldades, limitações. A ausência deles agora faz falta… Eles, bem ou mal, contribuíam para dar realismo ao campo das possibilidades.

Não é saudável, para o futuro governante, acreditar que a informação seja como pequenas peças de “quebra cabeças”, ininteligíveis à maioria, mas entendidas por ele.

Agora, sobretudo neste período de “lua de mel”, quando algumas das decisões mais cruciais para todo o seu governo terão que ser tomadas, o eleito precisa olhar para dentro de si para buscar orientação, e às vezes não encontra… O governante precisa de ajuda.

Não é, porém, qualquer tipo de ajuda que ele precisa. Algumas mais atrapalham que ajudam. Mas qual é o tipo de ajuda que necessita, neste momento? Informação.

Sua primeira e mais necessária ajuda são informações. Entretanto, informação é o que mais vai receber. Ocorre que não é a informação geral, nem os resumos e relatórios, que ajudarão ao governante a situar-se politicamente dentro do novo contexto. É óbvio que ele necessita informação especializada, setorializada, técnica. Mas essa informação virá dos grupos que criou para a fase de transição.

A informação que necessita mais é aquela que diz respeito a questões que interferem na sua condição de governante e na sua liberdade de agir e escolher, sejam elas técnicas, políticas ou pessoais. Como tal, esta tarefa de coletar informações relevantes para sua condição é indelegável. Só ele possui os critérios para entender e decodificar significados que seriam ocultos ou irrelevantes para os seus mais próximos auxiliares.

Se “fulano” fez uma declaração que não era previsível, ou se deixou de comparecer a uma reunião sem explicar-se satisfatoriamente, pode parecer, para seus auxiliares, como questões irrelevantes. Mas, para o governante, podem ser indícios de mudanças, avisos enviados a ele, ou outras questões de natureza assemelhada, que exigem sua pronta ação.

O governante precisa então tornar-se a sua própria agência de informação. É óbvio que suas “antenas” sensíveis estarão atentas somente a sinais importantes, ainda que não na forma ou aparência sob a qual surgem.

Ele nunca poderá supor que outra pessoa, um grupo, uma agência de governo, vai poder suplementá-lo com este tipo de informação. Com pequenas peças de “quebra cabeças”, ininteligíveis à maioria, mas entendidas por ele.

Por outro lado, ele deve pressupor que muito do que ele precisa saber não lhe será relatado por seus auxiliares e funcionários, pela mais variada sorte de razões: temor de represália, temor de ficar “queimado”, para não levar preocupações e angústias ao chefe, para não se incompatibilizar com colegas ou superiores, etc.

O governante então:

  • O governante precisa tornar-se a sua própria agência de informação.

    Não pode delegar esta tarefa a ninguém, não por questão de confiança, mas pela “não posse dos códigos” por parte dos outros, que só ele possui, em razão de sua perspectiva única, ensejada pela condição que possui;

  • Deve estar atento a todos os detalhes que interfiram sobre a sua liberdade e poder, para exercitar o cargo. Não apenas aquelas de natureza pessoal e política (já mencionadas), mas por igual, aquelas de natureza técnica, que os técnicos não atribuem grande importância mas que você, como governante, logo percebe que ela pode ser decisiva: para alguma promessa que fez, algum compromisso que assumiu, ou, pela falta que fará na articulação de meios que você concebera, para viabilizar uma medida.
  • Deve possuir “antenas” muito sensíveis, para perceber quando alguém está evitando contar-lhe alguma coisa importante, ou de gravidade, não importa por qual razão. Neste caso, deve insistir e exigir a informação, para não ser pego de surpresa. O que se chamou de perspectiva única; de questões que interferem sobre a liberdade e poder para exercer o cargo; conhecimento dos “códigos” que permitem interpretar ações; talvez necessite ser mais bem explanado.

Tratam-se dos riscos, custos e oportunidades pessoais do detentor do cargo. A responsabilidade do poder se individualiza nele, assim como as franquias e liberdades. O governo é inevitavelmente uma criação da sua vontade, da sua liberdade, das suas escolhas. Esta condição é única. Ninguém mais a possui.

O seu preço é a irredutível responsabilidade, igualmente pessoal. E possuí-las significa desenvolver um “foco” de atenção peculiar, pronto a detectar tudo que possa comprometer, por em risco, ou ainda a facilitar, aquela condição. Este “foco” pessoal penetra todas as suas instâncias de participação: o cargo, o partido, as instituições, as pessoas e a opinião pública.

O “foco” leva-o a interessar-se por questões maiores e por aquelas que aparentemente são menores; pelas técnicas como pelas políticas; pelas regras como pelos aspectos pessoais. A combinação destas “peças” isoladas de informação num padrão definido, diante do qual o governante deve se posicionar, depende da posse dos “códigos”, isto é, o conhecimento do significado e das consequências delas, o que, novamente, somente a perspectiva ensejada pela combinação liberdade/responsabilidade pessoal indelegável, permite possuir.

Este tipo de informação, e somente este, apenas o governante pode administrar e processar. São informações que possuem um potencial de impacto – positivo ou negativo – sobre as condições políticas pessoais de o governante exercer o poder e responder por suas responsabilidades.

Há centenas, milhares de outros tipos de informações que podem ser delegadas, ou aceitas em confiança. É sobre estas últimas que a maior parte das ações de um governo se desenvolve.

Situação análoga verifica-se também em outras áreas em que o governante precisa preparar-se para governar. Ele precisa de ajuda, mas a ajuda que necessita terá que ser provida por ele. É o caso da construção do “quadro de referência”, no interior do qual as suas principais decisões serão tomadas.

O quadro de referência” contém os compromissos pessoais assumidos (com eleitores e com outras pessoas)

Já vimos que o governante precisa de informações. Mas, não bastam as informações, é preciso conhecer o seu significado para poder prever conseqüências – custos e vantagens – e entender as relações que existem entre elas, que, o mais das vezes, permanecem escondidas da visão ingênua. É para dominar o significado das informações que o “quadro de referência” torna-se fundamental. A principal função do quadro de referência é proteger o governante da interpretação “literal” das informações e da visão ingênua dos fatos que pode induzir.

Este quadro de referências não é outra coisa senão a visão do governante sobre:

  • Os compromissos pessoais assumidos (com eleitores e com outras pessoas);
  • A interpretação das razões de sua vitória na eleição;
  • A “ideia” de governo que pretende implantar;
  • A avaliação pessoal que faz sobre as pessoas (colaboradores e adversários);
  • O quadro político maior, dentro do qual o seu governo se insere;
  • O “timing” que estabelece para as decisões que vai tomar.

Como se percebe, estes elementos possuem em comum o fato de que se prendem, de maneira absoluta, à sua percepção e aos seus interesses e objetivos. É um quadro referencial radicalmente pessoal. Não pode ser entregue para ser feito por terceiros. Mais importante ainda, somente pode ser “operado” por seu autor. Terceiros podem produzir trabalhos, estudos e análises como subsídios para constituí-lo. Mas a obra de consolidá-los num quadro acabado e operacional é exclusiva do governante.

Não se trata, é bom insistir, de um trabalho acadêmico. Trata-se, isto sim, de um esforço para tornar explícita cada uma das principais conclusões sobre os 6 elementos supra referidos. Não é pois um “texto” que o governante consulta a todo o momento. É, como se disse, um “quadro de referência” que leva na sua cabeça, e que ele utiliza ao tomar suas principais decisões. O que o torna tão importante é a capacidade de as informações poderem ser acomodadas dentro das 6 categorias, e as relações e articulações que elas passam a ter entre si.

A enorme burocracia que já ocupava lugares antes de você chegar ao poder pode facilitar sua vida ao tempo em que lhe retira o poder

A característica pessoal do quadro está marcada também no fato de que, ao contrário de trabalhos acadêmicos ou profissionais, ele combina conclusões gerais com “detalhes”, com informações “casuísticas”. Como governante você ouvirá muito de seus auxiliares que não deve se preocupar com detalhes, que deve deixá-los para outros. Este é um conselho que precisa ser considerado com cautela. É verdade que você deve concentrar seu tempo nas questões maiores, que sua assessoria de confiança deve preparar matérias para sua decisão. Mas é igualmente verdade que há detalhes que são às vezes mais importantes que estudos completos.

Não há regra para seguir sobre quais detalhes das informações sobre pessoas e processos, merecem a sua atenção pessoal. A única regra talvez seja aquela já enunciada: Interessa-lhe tudo que possa interferir com seu poder e com a sua capacidade de governar. Caberá a você ter critérios para pescar os “detalhes” que possuem esta marca, e inclui-los no seu “quadro de referência”. A conclusão a que chegamos é a de que o governante, se quiser efetivamente exercer o poder, terá que ser além de sua própria agência de informações, o seu próprio assistente executivo. Terá que ser as duas coisas, se quiser ser ajudado.

Talvez estas considerações pareçam despropositadas. Afinal, tendo ganho a eleição e o comando do executivo, o governante tem a seu serviço um exército de pessoas, escolhidas por ele, para auxiliá-lo. Porque então atribuir a ele estas duas funções de captar e processar informações e interpretá-las dentro de um “quadro de referências”? Porque é mais fácil talvez conquistar o poder que exercê-lo.

A enorme burocracia que já ocupava seus lugares antes de você chegar ao poder pode, por sua própria dinâmica funcional e interesses, emascular um governante, facilitando-lhe a vida ao tempo em que lhe retira o poder. Afinal, dos governantes no poder, quantos são efetivamente líderes e quantos são na realidade apenas o funcionário mais graduado da hierarquia? O que você deseja ser: um líder exercendo o poder ou um funcionário, ainda que o mais graduado, desempenhando tarefas? Este é o grande desafio do executivo moderno. Tudo “conspira” para torná-lo um funcionário, o mais graduado de todos, cercado de deferências e aparências de poder. Não basta o cargo para ser líder.

Por trás de coincidências, podem estar “jogadas” ou “lances” com autores definidos

É bom se acostumar, desde logo, com dois princípios políticos que, no mundo da realidade, são “quase leis” da política:

  • Não há coincidência na política
  • A quem beneficia a ação ou declaração

É até possível que haja coincidências, mas é mais aconselhável pensar e trabalhar com a convicção de que a coincidência nada mais é do que um fato para o qual ainda não encontramos as informações que a expliquem. Aceitar a coincidência como um “fato acabado”, que se auto explica pelo acaso, pode, na maioria das situações, encaminhar o governante para o rumo do pensamento mágico, portanto ingênuo.

Se o fato em questão, resistir às tentativas de explicação por informações objetivas, colhidas para explicá-lo, e não tiver outros desdobramentos, então sim, era uma coincidência. Você verá que, adotando esta postura cética em relação à coincidência, descobrirá que por trás das aparências do acaso são encontráveis interesses, “jogadas”, “lances”, com autores definidos, assim como beneficiados e prejudicados identificáveis.

A segunda “quase lei” da política real sustenta que, diante de um fato, para o qual não encontramos uma explicação óbvia e imediata, deve haver alguém que dele se beneficia. Por isto, a sabedoria da política ensina, desde os romanos, que se deve, nestes casos, fazer-se a pergunta: a quem beneficia? (“Cui prodest”), na expressão cunhada pelos romanos. O pressuposto lógico que está por trás desta postura metódica é de que as ações políticas são “decisões racionais” destinadas a realizar objetivos definidos. É certo que nem todas as ações políticas são racionais. Sabemos que os sentimentos e as emoções jogam um papel de enorme importância na política. Entretanto, se formos interpretar os atos a partir das emoções e sentimentos, teremos que deixar de fazer política para fazer psicologia. Mais ainda, ingressaremos num território.