Luanda – a capital de Angola – em 1975 se pôs ao mar em busca do território português ou brasileiro para escapar do caos que se antecipava para depois da declaração de independência de Portugal.

A reportagem do jornalista polonês Richard Kapuscinski descreve o insólito da situação que presenciou e viveu em Luanda, nos dias que antecederam a conquista formal da independência de Angola.

O país se encontrava em guerra civil. Não entre portugueses e angolanos. A independência já estava resolvida depois da recente vitória da Revolução dos Cravos em Portugal. A guerra era entre os angolanos.

Havia três movimentos populares lutando entre si para conquistar o comando da nova nação: o MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola); FNLA (Frente Nacional pela Libertação de Angola) e a UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola).

O MPLA era dirigido por Agostinho Neto e tinha uma orientação ideológica comunista; a FNLA era dirigido por Holden Roberto de orientação ideológica anticomunista e hostil aos portugueses e a UNITA era liderada por Jonas Savimbi com uma ideologia anticomunista, nacionalista e um forte vínculo tribal na “Angola profunda” do interior do país.

A independência já estava acertada com o governo português oriundo da Revolução dos Cravos, notoriamente de esquerda.

Mas estava acertada com o MPLA, pelos vínculos ideológicos que ligavam os governantes lusos com o movimento de esquerda de Agostinho Neto.

Negociada com Portugal a independência possuía também uma data já definida às 23 horas do dia 11 de novembro de 1975.

Como os movimentos competiam entre si pelo governo (ou pelo menos a participação no governo) nenhum desistia de representar a nova nação. Em razão dessa situação cada um decidiu que faria a declaração de independência no dia e hora já marcados.

A FNLA de Holden Roberto proclamou a independência em Ambriz; o MPLA o fez em Luanda e, a UNITA em Huambo. Angola teve então três declarações de independência.

Passado o breve momento das declarações, a guerra entre os movimentos recomeçou, a partir das posições já ocupadas: a FNLA ao norte e nordeste de Angola; a UNITA no Sul e o MPLA ocupando a capital Luanda e partes da zona costeira de Angola.

Favorecido pelo governo português de esquerda e por sua ocupação de Luanda, o MPLA conquistou a sede do poder e excluiu a UNITA e FNLA do governo.

A guerra civil entre os movimentos acomodou-se então às condições da guerra fria da época. O MPLA com o apoio da URSS e de Cuba cujas tropas chegaram antes da independência; a FNLA contava com o apoio do Zaire, da China e de mercenários; e a UNITA teve o apoio da África do Sul que invadiu Angola em agosto de 1975, tomando o rumo de Luanda.

A guerra civil não teve o caráter de uma guerra “regular”, ela consistiu no essencial numa guerrilha que pela sua dimensão envolveu o país inteiro.

Os Estados Unidos não reconheceram como legítimo o governo do MPLA, mas não se envolveram na guerra civil ostensivamente.

Cerca de um milhão de portugueses, temendo o caos em que o país se tornaria, fugiram de Angola predominantemente para Portugal e Brasil.

Foi nesse momento, com a guerra civil turbinada pelo apoio de Cuba (homens e armas) e da URSS ao governo e ao MPLA; e com a UNITA com apoio militar da África do Sul que se desdobra o episódio narrado de Luanda, uma “Cidade ao mar”.

Luanda em agonia

Kapuscinsky narrou a agonia de Luanda antes e após a declaração de independência:

“Luanda não estava morrendo da forma como morriam as cidades polonesas na guerra. Não havia ataques aéreos, não havia “pacificação” nem a destruição de distritos. Não havia cemitérios nas ruas e praças. Não recordo de ter visto um único incêndio. A cidade estava morrendo como morre um oásis quando o poço de água seca.”

“A cidade vivia um momento de uma agitação febril, todos tinham pressa, todos os que podiam estavam se preparando para abandoná-la; embarcar no próximo avião para a Europa, para a América para qualquer lugar. Ao mesmo tempo, portugueses de todas as regiões de Angola convergiam para Luanda. Caravanas de automóveis lotados com pessoas e bagagens, chegavam dos mais distantes locais do país.

Os homens com barba não feita, as mulheres com roupas amarrotadas e despenteadas, as crianças sujas e sonolentas. Como não havia vagas em hotéis seguiam todos para o aeroporto, onde surgiu uma cidade de nômades, sem ruas ou casas. As pessoas viviam nos espaços abertos, molhados por que estava sempre chovendo, apáticos e resignados.”

“Todos sabiam por que queriam fugir. Eles sabiam que sobreviveriam setembro, mas outubro seria muito ruim e ninguém sobreviveria novembro!”

Para os portugueses que tentavam escapar de Angola tudo que desejavam agora era ir embora com suas vidas e suas posses. Foi então neste momento que todos se ocuparam em fazer caixotes e engradados.

“Montanhas de pranchas de madeira e de compensados se acumulavam nas ruas, em frente às casas. Engradados tornavam-se o assunto principal das conversas – como construí-los, como reforçá-los. “Especialistas” em engradados surgiam de todos os cantos.”

“No interior da Luanda de tijolos e concreto surgia uma nova cidade de madeira.”

“Alguns engradados eram do tamanho de casas de férias formando uma hierarquia com base no status; quanto maiores fossem os engradados mais ricos eram seus donos. No interior destes estavam a mobília de salões, quartos, sofás, mesas armários, carpetes, candelabros, roupas de cama, roupas de vestuário, tapetes, vasos (eu os vi com meus próprios olhos). Enfim lá estava tudo que se acumula numa casa de classe média, revstas, floreiras, lagarto empalhado, miniaturas, quadros e fotos caixas de vinho, material de pesca.”

“Os engradados dos pobres são muito menores, feitos por uma mão de obra precária. Muitos eram de alumínio pregado a mão. Os engradados dos ricos ficavam nas ruas principais; os dos pobres ficavam pátio dos fundos, em terrenos baldios, nas entradas para veículos, nas calçadas. O trabalho de construção eram realizados à noite, quando os conteúdos da cidade de alvenaria se transferem para a cidade de madeira. Gradualmente, de noite para noite a cidade de pedra perde seu valor em favor da cidade de madeira.”

“Em nenhum outro lugar no mundo eu tinha visto uma cidade como esta e eu provavelmente nunca mais vou ver outra como ela. Ela existiu por meses e subitamente começou a desaparecer, era levada por caminhões para o porto. Durante o dia as pessoas andavam pelas ruas de engradados fixando placas onde estavam pintados seus nomes.”

“Subitamente a cidade de madeira não estava mais lá. Ela estava a bordo de navios navegando no oceano. Os navios formavam uma grande frota que, depois de algumas horas, desaparecia abaixo do horizonte.”

“Eu não sei se já tinha ocorrido o caso de uma cidade inteira sair navegando através do oceano… Mas isso foi exatamente o que aconteceu. Os portugueses saíram de Angola e se espalharam pela Europa e América. E agora a cidade de madeira navegava o Atlântico. Em algum lugar do Oceano a frota se dividiu em três grupos, cada um para uma cidade: a maioria para Lisboa, a seguir para o Rio de Janeiro e o terceiro grupo para Cape Town na Africa do Sul.”

“Foi então que Luanda foi dominada pelo medo. não tinha mais polícia; nem bombeiros; nem coleta de lixo; ficaram os cães, abandonados por seus donos que fugiram em pânico. Viam-se cães das mais caras raças soltos pelas ruas: Boxers, Poodles, Dobermans, Pugs, Airedales, que varavam a cidade em busca de alimentos. Por fim, mesmo os cães abandonados desapareceram.”