“Só as pessoas inteligentes procuram, para auxiliá-las, pessoas mais inteligentes do que elas” – (Baltasar Gracián – jesuíta espanhol – 1601/1658)

A citação refere-se a uma regra da prudência política de grande e venerável tradição. Ela faz parte do que se chamava, sobretudo nos séculos 16, 17 e 18, de “a educação do príncipe”. Essas obras formavam um corpo de conhecimentos voltado ao aconselhamento e à advertência aos governantes, escrito por sábios de imensa cultura histórica e especial sensibilidade para o lado prático e real da política. Os jesuítas – e, de maneira geral, os religiosos – talvez tenham sido os principais responsáveis por essa literatura política, embora não exclusivamente.

O conselho contido na citação, alerta para o fato de que, não sendo possível governar sozinho, o governante deve procurar cercar-se de auxiliares qualificados. A advertência fazia sentido na época, porque havia o risco, sempre presente, de o monarca pretender exercer seu poder absoluto de forma individual e arbitrária. A tradição do pensamento político ocidental sempre execrou a tirania e o despotismo.

O filósofo jesuíta Gracián: aconselhamento e advertência aos governantes

Qual a lição que podemos extrair desta expressão para o nosso tempo? Em primeiro lugar, devemos entender o conceito de inteligência mais amplamente. Os atributos pessoais que hoje em dia correspondem ao termo, à época de Gracián eram outros. Não se restringem também à mera qualificação técnica. Não se contesta hoje que as diferentes áreas de conhecimento, usadas numa campanha eleitoral ou no governo, sejam ocupadas por indivíduos que possuem muito mais informação e experiência do que aquele que os escolhem para assessorá-lo.

A advertência deve alertar-nos para o fato de que o candidato e, com mais razões, o governante, deverão tomar algumas decisões-chave na escolha de seus auxiliares. Em torno de cada candidato – como um projeto de poder -, e de cada governante – como a realidade do poder -, orbitam pessoas de variada conformação moral, intelectual, política ou profissional. Na seleção dos auxiliares, na atribuição de funções e, acima de tudo, na delegação de autoridade, o político toma aquela que talvez seja a mais importante das suas decisões.

Por mais que o político tome precauções ao escolhê-los, trata-se de uma decisão que sempre incorpora uma margem de incerteza e risco. Há uma tendência muito forte no político, como em qualquer pessoa, de preferir, confiar mais e atribuir maior importância àquelas pessoas que dizem o que ele gostaria de ouvir. Afinal, tanto a campanha como o exercício do poder são tão desgastantes do ponto de vista emocional que o político vive na expectativa de boas notícias.

Exatamente na contramão dessa tendência, situam-se aqueles auxiliares que costumam dizer a ele o que ele não gostaria de ouvir. Não há como evitá-los – nem se deve – porque qualquer campanha (salvo aquelas situações excepcionais, nas quais a vitória é fácil e certa) sempre tem falhas e sempre está aquém dos objetivos buscados. Se o candidato não exercitar seu senso crítico em relação aos primeiros e não assegurar a legitimidade das críticas dos segundos, sua campanha vai se dividir – como ordinariamente ocorre – entre os otimistas e os pessimistas, deslocando a discussão das questões concretas para as pessoais.

Políticos tendem a confiar mais em quem sempre traz boas notícias

Qualquer matéria submetida à discussão passa, então, a ser encarada por essa ótica e a guerra pelo ouvido do candidato torna-se uma guerra quase tão importante quanto a disputa eleitoral. O candidato não deve aceitar a implícita imposição que lhe é feita para decidir entre uns e outros. Ele deve exigir de todos que substanciem seus argumentos com fatos e não apenas com opiniões. Deve acautelar-se, por igual, com os que sempre dizem aquilo que ele gostaria de ouvir e os que sempre dizem o que não gostaria. A realidade política não se sujeita a esquemas tão simplistas assim.

Os critérios básicos para julgar devem ser os mesmos para todos: lealdade, honestidade, inteligência e argumentação baseada em dados objetivos. Atendidos tais atributos, a opinião deve ser levada a sério, não importando se quem a profere é chamado pelos outros de otimista ou pessimista. É nesse sentido, então, que o conselho de Gracián deve ser entendido. Não se trata, propriamente, de pessoas mais inteligentes que o candidato e, sim, de pessoas que mesmo diante dele e da sua ânsia por boas notícias conseguem manter independência e objetividade. Esses são os auxiliares que o candidato precisa ter a sua volta.

Atenção: você provavelmente está mal assessorado se os seus auxiliares só lhe trazem notícias boas, que as pesquisas não confirmam com os resultados.