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A verdade sobre a mentira na política

Mentir é, certamente, um dos mais graves erros que se pode cometer na vida publica. É mesmo difícil imaginar-se um outro erro que tenha maiores consequências sobre a carreira política. Mais que um erro, mentir é uma falha ética grave. Mas, uma falha ética que implica consequências muito sérias na política.

Página de jornal descrevendo toda a operação Watergate, que acabou levando Nixon à renúncia do cargo de Presidente dos Estados Unidos

Há mentiras que são mais facilmente perdoadas. Em geral são aquelas que, ou envolvem relações muito afetivas (amor, família, amizade), ou que se referem a matérias de pouca importância, que não resultam em ganhos significativos para quem mentiu.

Existem, por outro lado, mentiras que muito dificilmente são perdoadas. São aquelas que ocorrem entre indivíduos que não se conhecem pessoalmente, mas que de alguma forma se uniram por um ato de fé e confiança. Este é o caso da mentira na política.

A mentira é sempre um rompimento unilateral da confiança até então existente. É o rompimento de um pacto de honra, o mais das vezes tácito e implícito, que destrói a confiança daquele que foi alvo da mentira.

Nas relações muito pessoais, há vários elementos que podem atenuar a gravidade do ato. Afinal, existem muitos vínculos de natureza afetiva entre as duas partes. Há o reconhecimento de outras qualidades valiosas que podem contrabalançar a agressão da mentira, há mais tolerância para as explicações, e há um desejo íntimo muito forte de virar aquela página, desde que ela não mais se repita.

Nas relações políticas essas considerações não se aplicam. Nelas não há contato pessoal entre o governante e o cidadão, entre o candidato e o eleitor. Além disso, muito poucos são os políticos que possuem um eleitorado cativo.

As relações que existem foram criadas por estruturas sociais intermediárias, como referências de terceiros, e, acima de tudo a comunicação pela mídia. São relações inicialmente de simpatia, a seguir de preferência, e, por fim, de confiança.

Mas é preciso qualificar: trata-se de uma confiança que não lançou raízes no íntimo do eleitor e cidadão, de uma confiança que facilmente pode ser abalada e transformar-se no seu oposto. É, pois uma confiança precária.

Esta é a confiança predominante no mundo político. Por essa razão a mentira é tão destruidora da carreira pública. A mentira, uma vez comprovada, rompe uma relação que, sendo distante, não admite atenuante, nem explicações, como é o caso nas relações pessoais, face a face, íntimas.

Veja-se o caso de uma campanha eleitoral. Toda campanha é um processo de comunicação, mas não é demais lembrar, “comunicação interessada”, isto é, todos os candidatos buscam obter dos eleitores algo que precisam muito: o voto.

O eleitor, sabe disso e procura descobrir, dentre os candidatos, argumentos, projetos e ideias com os quais concorde e valores, atitudes, gestos e comportamentos que lhe permita se identificar com aquele candidato e aquela candidatura.

Joseph McCarthy

Joseph McCarthy representa o uso da mentira como prática política

Não basta, portanto, ter bons projetos, ideias e argumentos. Eles apelam para o lado racional do eleitor que, influencia a sua decisão de voto. Mas, ao contrário do que muitos pensam, essas razões não bastam para decidir em quem votar.

Mais importante, prévio e condicionante daquela decisão, é o lado emocional do eleitor por meio do qual ele vai ungir com a sua confiança o seu candidato. Primeiro a confiança. Em segundo lugar os projetos. E, muitas vezes, mesmo diante de excelentes projetos, o eleitor vota naquele em quem mais confia, ainda que seus projetos não sejam tão bons.

A campanha de cada um dos candidatos funciona então como uma oficina de informações positivas, otimistas e estimulantes sobre ele e seus projetos e de informações negativas sobre seus adversários. O mesmo sucede no governo que se encontra no poder.

Simultaneamente, a mídia (jornais, rádios e TVs) empenha-se em produzir as suas informações sobre os candidatos, na lógica que lhe é peculiar, na qual informações negativas, como acusações, escândalos, suspeitas, revelações etc, atraem mais a atenção e vendem mais do que as informações positivas.

Essa tendência contemporânea do recurso à propaganda negativa na política tem estimulado a criação do setor de pesquisa de oposição (opposition research) nas campanhas, destinada a pesquisar o passado dos adversários, para encontrar informações que o coloquem mal perante os eleitores.

Estas informações podem ser de natureza pessoal, profissional, administrativa ou política, e serão usadas desde que tenham o poder de desqualificar, ou no mínimo lançar profundas dúvidas sobre o caráter, a coerência ou a competência do adversário.

Nesta busca, as informações “mais preciosas” são aquelas que aliam à sua gravidade intrínseca o fato de que foram escondidas da opinião pública, seja por omissão de referência, seja pelo deliberado uso da mentira para seu ocultamento.

A sua divulgação equivale a uma “revelação”, um fato novo e inesperado, em relação ao qual o candidato fica na obrigação de se explicar. Esta situação o coloca na defensiva e sob suspeita (Por que ele escondeu esta informação dos eleitores?).

É claro que, assim como outras situações políticas, esta tem também as suas nuances.

Se a informação negativa for incorreta, inverídica, ou se o atacado tiver para ela uma explicação convincente e justificada, o tiro sai pela culatra, e o acusador aparecerá como um político irresponsável, oportunista e não confiável.

Por outro lado, se a informação estiver sustentada por fatos e/ou documentos irrefutáveis, e o acusado não puder apresentar razões sólidas em seu favor, ficará numa situação política de grande fragilidade. A qualquer momento da campanha a acusação poderá ser novamente levantada, para mantê-la viva na lembrança do eleitor.

O candidato deve analisar com extremo rigor o seu passado, antes de começar a campanha

O candidato deve então, antes de começar a campanha, e antes de investigar o passado de seus adversários, analisar com extremo rigor o seu passado e avaliar se ele resiste a uma campanha eleitoral. Deve olhar para seu passado com os olhos de um adversário.

Se ainda não exerceu um cargo público deve olhar detidamente sua vida pessoal e profissional. Se já ocupou uma função pública, além destas duas áreas deve reconstituir suas ações administrativas e/ou projetos de lei que patrocinou, e seus votos aprovando ou se opondo aos projetos votados no órgão legislativo em que participou. O foco desta auto-investigação são:

  • Fatos, dos quais haja comprovação testemunhal ou documental;
  • Fatos graves, que signifiquem desqualificação para o cargo pleiteado;

Havendo fatos com estas características, deve avaliar se dispõe de argumentos para “liquidar” a questão, com explicações cabais e convincentes. Se julgar que não dispõe desta condição deve pensar seriamente em desistir da sua candidatura, até que os possua.

Se, por outro lado, dispuser de argumentos que tenham o poder de neutralizar a “revelação” poderá então seguir uma ou outra das seguintes alternativas:

  • Criar a armadilha: deixar que o adversário traga o fato a conhecimento público e o explore politicamente, criando a expectativa de que conseguiu deixá-lo sem saída, para só então dar a sua versão de forma contundente, indignada, convincente e cabal, partindo para a ofensiva e denunciando-o por sua irresponsabilidade, demagogia e falta de escrúpulos. Ao assim agir o candidato atacado passa de réu a acusador, de “criminoso” a vítima, e pode conseguir um importante acréscimo de apoio por parte dos eleitores.
  • Antecipar-se à denúncia: tomar a iniciativa de revelar o fato (anunciando que sabe que seus adversários vão tentar explorá-lo politicamente) para demonstrar que não tem motivos para temer a acusação, até por que ela ou não é verídica, ou é incorreta, ou que, diante da explicação, feita com franqueza e transparência, ela perde o sentido, e quem a faz está sendo injusto, oportunista e desleal. (Clinton na campanha de 1992 na questão do recrutamento para a Guerra do Vietnã)

O que o candidato não pode fazer é mentir sobre seu passado, seja para valorizar-se seja para defender-se. Ou o que ocorre com expressiva frequência, sustentar a ingênua crença de que seus adversários não vão investigar o seu passado. Ou o que é ainda pior, “fazer de conta” que o fato não existe e não preparar-se para lidar com ele quando vier a tona.

O que ele não pode permitir é que, diante de uma revelação que pode destruir a sua credibilidade, não disponha de elementos e argumentos para sobreviver a ela.

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