Qualquer político sabe, senão por teoria por experiência, que há uma inevitável diferença entre as regras da vida privada e as da vida pública. Ambas existem, possuem diferenças muito importantes, e o político terá de se adaptar às duas, já que nenhuma pode assimilar a outra.

Provavelmente este político também já constatou que, às vezes, o “comportamento virtuoso” da vida privada, quando literalmente transposto para a vida pública produz efeitos políticos desastrosos; enquanto outros comportamentos menos virtuosos contribuíram para a realização dos objetivos colimados.

É nessa diferença que reside a ambiguidade da política para o cidadão comum, e a sua tendência para encará-la de maneira negativa e pejorativa.

O cidadão comum continua cultivando os valores da vida privada, acreditando que devam ser os mesmos a regular a vida pública, enquanto o político e o governante sabem que a realidade não é essa e que terão que administrar aquela inevitável contradição.

Na vida privada o que se disse ontem tem que ser mantido amanhã; na vida pública a capacidade de mudar de opinião é não só natural como frequente; na vida privada mudar de partido é uma falta de princípios, na vida pública uma contingência politica; na vida privada a promessa feita é um compromisso moral, na vida pública é um compromisso político, sujeito a variadas condições. Na vida pública um certo grau de flexibilidade é absolutamente indispensável.

Por não compreender a diferença de natureza que existe entre as duas esferas de vida para o político e, porque nenhum político se atreve a explicá-la ao eleitor ( até porque estaria liquidado politicamente no momento em que o fizesse), permanece esta “brecha” perceptiva entre o eleitor e o político. É desta “brecha” que provêm os preconceitos para com a atividade política e os políticos.

Os políticos, tendo que agir levando em conta a lógica própria da esfera pública precisam, pelo menos, “parecer” aos eleitores que adotam os comportamentos determinados pelos valores da esfera privada.

Quando são flagrados adotando comportamentos diferentes do esperado (vida privada) são percebidos como traidores, corruptos imorais.

É essa mesma “brecha” que obriga o político a viver duas vidas: com os eleitores cultivando os valores e virtudes da vida privada, por meio dos quais é visto como um deles e conquista a sua confiança; com os outros políticos e governantes, praticando a “lógica do poder”, sem a qual não sobrevive na selva política.

Esta “brecha” perceptiva não se elimina. Ela se enraíza na própria lógica da vida política.

Atente-se que não estamos nos referindo ao contraste entre honestidade e desonestidade, entre ética e corrupção.

Mesmo os políticos mais honestos têm que legitimamente recorrer a expedientes aos quais, como regra, não precisariam recorrer na vida privada para, por exemplo: esconder sua estratégia dos rivais; para se proteger das promessas; para fazer alianças e coalizões sem as quais não conseguirá governar…

Os valores e princípios morais são indispensáveis ao político. São eles que, em última análise, conferem sentido à sua carreira e às suas atividades. Entretanto a absoluta intransigência moral assim como a ideológica, torna o político demasiado rígido para a intrínseca plasticidade da vida política.

Reconhecer a diferença entre as duas esferas de vida não significa, porém, tolerar comportamentos desonestos e uma comunicação mentirosa. Significa apenas admitir que a esfera pública possui uma lógica própria, diferente da vida privada, como alertou Maquiavel há cinco séculos.

Na política poucas são as vezes em que se decide entre o mal absoluto e o bem absoluto. A maior parte do tempo decide-se sobre o mal menor e o bem possível, matérias que estão longe de possuir aquela característica de escolha apocalíptica.